SOBRE O COOPERATIVISMO

I

“Para funccionar normalmente, tem o syndicato profissional, orgam da resistencia operaria, que estar livre e desembaraçado de quaisquer outras funcções, nitidamente separado de qualquer outro orgam de funcção economica diversa.”

Neno Vasco

Não sabemos porque vem para que andam os cooperativistas locaes a quererem impingir o seu cooperativismo a torto e à direito.

Que elles vendam sua mercadoria aos que se conformam com a actual organização social, ainda vá. Mas quererem desviar os syndicatos revolucionarios com as suas cantilenas e ainda mais, arvorarem-se em mentores do movimento obreiro, taxando aquelles que mais tem trabalhado para a organização operaria, de desorganizadores, pelo simples facto de não lhe baterem palmas, isso é que não.

Nós não condenamos esse principio, o Cooperativismo. Se fosse possivel evitar os intermediarios que oneram sobremodo a mercadoria tanto melhor para nós.

Mas nem por isso vamos relegar a attitude revolucionaria dos syndicatos em seu favor, porque se o cooperativismo nos podesse trazer algum proveito na sociedade actual seria meramente illusorio e não compensaria os prejuizos causados por outro lado.

Queremos dizer que se nos proporcionasse alguma vantagem no preço das mercadorias, não deixava contudo de annullar o espirito revolucionario dos associados, voltando-lhe as vistas para os interesses mercantes, vale dizer, fazendo-os esquecerem-se de dar combate acerrimo á burguesia.

Abandonando a resistencia, o trabalhador deixa o campo aberto á desenfreada exploração patronal, tornando-se resignado e passivo.

Quer isto dizer que sem a resistencia o salario baixaria inutilizando o lucro que por acaso se auferiu na cooperativa.

Mas a resistencia bem encaminhada não visa simplesmente augmentar o salario, porque isto constitue um circulo vicioso do qual é preciso sahir. O syndicato moderno tem por principal escopo a abolição completa do salario.

Por isso não pode comtemporizar com panaceias, aguas mornas, furta-cores. Vale mais pois um syndicato avançado do que um feixe de cooperativas.

Além do que, se o Cooperativismo salvasse da miseria, já de há muito os trabalhadores europeus estariam no reino da gloria porque tudo têm experimentado: – mutualismo, cooperativismo, parlamentarismo, etc.

Mas para confirmar que as cooperativas quasi só approveitam á burguezia, basta o facto de os governos as aconselharem e diffundirem, inclusive no Brasil.

Serve, geralmente, o cooperativismo para a fabricação de burocratas, embrutecimento de seus componentes e, sobretudo, para o arranjo de meia duzia de espertalhões, disfarçados em amigos dos operarios.

A “Revista Liberal” do mez passado, que é editada em Porto Alegre, forneceu-nos um exemplo de flagrante opportunidade.

Trata-se da Cooperativa de Consumo dos empregados da viação ferrea do Rio Grande do Sul.

Segundo lemos, essa riquissima Cooperativa, pela sua acção, é a summaria condemnação do systema, pois incorre em deslizes absurdos.

1o – Exerce uma ferrea dictadura sobre os cooperados fazendo tudo discricionariamente.

2o – Vende a maioria das mercadorias por preços superiores aos do mercado.

3o – mandou construir um edificio em Santa Maria para uma escola de Artes e Oficios e, á revelia entregou-a nas mãos dos padres maristas.

E isto pode quasi generalizar-se.

Aqui no Rio não podemos augurar melhores resultados, mormente, quando a Confederação é um amálgama de proprietarios e empregados, isto é, de exploradores e explorados.

Abram os trabalhadores as vistas e não se deixem cahir na ratoeira.

A. VAZ

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Patria (Rio de Janeiro) no dia 3 de novembro de 1923

SOBRE O COOPERATIVISMO

II

“Onde a Cooperativa penetra, desaparece o syndicato de resistencia”

Se não se póde dizer que os principios cooperativistas estão em franca opposição com os principios syndicalistas revolucionarios, pelo menos não pode soffrer duvida que jamais os syndicatos devem desviar-se do seu verdadeiro caminho, do seu único objetivo que é a emancipação integral dos trabalhadores.

Para isto conseguirem e se conservarem dentro do seu papel, preconizam a lucta directa, sem tréguas contra o patronato, o capitalismo voraz e o estado visando extinguir as classes, abolir a exploração do homem pelo homem.

Ora, não nos consta que o cooperativismo em sua theoria ou pratica collime finalidades identicas.

Acceita o actual estado de coisas, adapta-se as modalidades commerciaes da época, absorve a attenção e energia dos trabalhadores, conferindo-lhes em troca um presente de gregos.

Vejamos, pois, ao acaso, os estatutos de uma cooperativa, a da Companhia Petropolitana por exemplo (Vide “O Paiz” de 8-8-23) para comprovar o que asseveramos.

Devemos, preliminarmente, notar que estes estatutos servem de modelo para todas as cooperativas e nada mais, nada menos do que a copia da lei votada em 1907, regulamentando o funccionamento das cooperativas, syndicatos agricolas etc…

Começaremos pelas finalidades:

Art 2o – São seus fins:

a) Promover entre os seus membros e para elles, a venda de todos os generos de consumo agricolas, pastoris e industriaes, adquiridos directamente ou indirectamente,

b) Adquirir para serem vendidos aos socios, todas as mercadorias e manufacturas domesticas produzidas por socios e suas familias;

c) Adquirir terras e instrumentos de trabalho para socios que desejarem resisdir em regiões ruraes, mediante pagamento a prazo e em produtos agricolas.

Art 3o – Para o primeiro item (a) do artigo 2o, a Cooperativa de Consumo estabelecerá em local apropriado, um armazem regional e tantos armazens districtaes quantos necessarios se tornarem pelo desenvolvimento de suas operações e augmento de numero de socios consumidores.

Art. 4o – Para o segundo item (b) do art. 2o, installará, por intermedio do Syndicato Profissional, tantas cooperativas districtaes de consumo forem os grupos de sete ou mais adherentes a estes estatutos, que realizem qualquer cultura ou industria domestica, por si ou suas familias, ou que residam em regiões ruraes, onde possam collaborar como adquiridores directos de mercadorias necessarias ao consumo dos membros das cooperativas urbanas de consumo.

Art. 5o – Para o terceiro item (c) do art. 2o, organizará nas regiões ruraes, por intermedio do Syndicato Profissional, pequenas cooperativas de producção em terrenos colectivos, até que esses terrenos se tornem propriedades individuaes, mediante pagamento da parte destinada a cada socio, na forma indicada no mesmo item (c) do art. 2º.

Eis ahi textualmente tudo quanto se propõem fazer os cooperativistas. E nós sabemos muito bem o que são programmas: – são coisas que se pretendem fazer “se os ventos correrem favoraveis”, sempre promessas quasi sempre enganados.

Do exposto resulta que se a cooperativa não vinga, como soe acontecer, perdeu o trabalhador todo o seu tempo, sinão tambem alguns miseros vintens roubados a sua alimentação e da familia.

Se porém, consegue solidificar, insufla em seus cooperadores a noção estreita de que está achada a solução do problema social, olvidando o renhido combate que seria de seu dever dar ao regimen do salariato, causa de tantos males.

Mas ainda desta vez se illude porque a prova de que o problema da miseria continua de pé, é o fato dos cooperativistas propugnarem pelas caixas de credito. Para que é o credito? Naturalmente para os que necessitem delle, para os que estão mal.

Como se vê não visam nem a extincção do dinheiro, nem da lei, isto é, acceitam a sociedade conforme está constituída – com todo o vampirismo, toda a oppressão do forte contra o fraco, a exploração do senhor contra o escravo. Não resolvem nem a questão economica, nem politica, nem social. São trambolhos aos quaes o proletariado só deve ligar para afastal-os do seu caminho com a ponta do pé.

Estas considerações nos occorreram pelo facto de muitos syndicatos que formaram a vanguarda dos trabalhadores aqui do Rio, terem dado ouvidos aos cantos das sereias cooperativistas, indo certamente com o seu nome dar vulto a uma obra que, se não se puder chamar prejudicial, pode entretanto classificar-se de perfeitamente inutil para a causa operaria, para a transformação social. Sim, porque só lhe vislumbramos um merito e esse mesmo em grau diminuto – é o de ir creando nos trabalhadores algum espirito associativo.

Mas é de estranhar por isso, terem-lhe emprestado o seu prestigio, associações já imbuidas desse espirito, porque se expõem a amortecer, a annular as tendencias de rebeldia que é imprescindivel incutir e estimular nos seus componentes.

A. VAZ

P.S. – Uma das raposas (naturalmente a raposa mestra) do cooperativismo, magoada com as idéas expendidas em nosso anterior artigo, enfureceu-se e, do alto de sua “sabedoria”, arremessou-nos uma saraivada de sandices que agradecemos e pedimos licença para devolver intactas.

Como não nos controverteu e limitou a atacarnos pessoalmente, julgamos desnecessario perder tempo com semelhantes assumptos que só a nós não á doutrina dizem respeito.

E o sermos branco, amarello, preto, roxo ou pau para colheres não importa aos trabalhadores.

A.V.

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Patria (Rio de Janeiro) no dia 11 de novembro de 1923

SOBRE O COOPERATIVISMO

III

Vamos hoje analysar como, á medida que o cooperativismo penetra no seio da classe operaria, a resistencia vae perdendo suas posições.

Fundada qualquer cooperativa em um bairro onde exista um syndicato de resistencia, está mais que evidente a sua concorrencia, procurando organizar os associados deste ultimo. A seu favor encontrará, immediatamente, muitos dos operarios – conscientes, talvez alguns “mestres” ou “contra-mestres” etc, originando-se dahi, certa pressão para obrigatoria adhesão em puro detrilmento (sic) da outra organização.

Admittamos, para o caso, visto já a termos citado, a Companhia Petropolitana, com funccionamento em Cascatinha.

Sabe-se que a União dos Operarios em Fabricas de Tecido possuia uma sucursal. Não traz duvida alguma que não seria vista com bons olhos pelos magnatas do industrialismo desse bairro. Não hesitamos por isso até affirmar que foram elles os primeiros a suggerirem a creação dessa tal Cooperativa com o fito de desnortear seus assalariados, de lhes desviar a attenção da Sucursal. Mas mesmo não sendo elles os promotores directos e indirectos de taes “arapucas”, irrecusavel acceitam mais depressa uma cooperativa que em nada os prejudica, do que uma organização que procura esclarecer seus componentes, pondo-lhes bem deante dos olhos os motivos do seu mal-estar, de sua miseria em contraste com a abastança dos plutocratas.

E para que a resistencia desapareça no mais curto prazo, pois é esse o mais ardente desejo dos capitalistas, não será demasiado acreditar até em possíveis auxilios, para captivar suas victimas, trazel-as sempre acorrentadas e lograrem por fim ouvir dos labios desses cegos explorados exclamações como estas:

– “Que bom patrão!” – “Que patrão magnanimo que nós temos!”

Nada perderão com isso.

Os operarios, esses sim. Consequentemente desde que taes iniciativas se enquadrem no espirito patronal, é facil deprehender o sorriso para aquelles que ingressando na cooperativa, abandonem o syndicato.

E isso se dá porque, mesmo desejando continuar na resistencia, o operario não ganha para pagar, e muito mal, a mais de uma associação, tem pouca consciencia e é acomodatício.

Eis como, na Cascatinha existe hoje a cooperativa dos operarios da Companhia Petropolitana, mas a União dos Operarios em Fabricas de Tecido não tem mais lá sua succursal.

Aqui no Rio, pode quasi verificar-se a mesmissima coisa. Há por ahi diversas cooperativas do op. texteis, como na Gavea, Villa Isabel, no Andarahy, etc. e se não deram o tombo na União não deixam contudo de lhe obstaculisarem a marcha evolutiva, desfalcando-a no numero de associados e fazendo-lhes crer que a União nada vale e que a sua salvação está na pratica do cooperativismo.

Veremos, proximamente, alguns pontos do cooperativismo na pratica.

Quando não entra, portanto, como factor principal da decadencia syndical essa doutrina desempenha uma missão não menos digna de repulsão: – impede o florescimento, a creação de lidimos orgãos defensores da classe. Desta forma, todas as classes que soffreram seu influxo, como os ferroviarios, nem por sombra pensam em semelhante coisa. Preferem andar com os pagamentos atrazados, ser instrumentos de ignominosas explorações politicas, soffrerem toda sorte de vexames, mas imporem-se como homens, fazerem valer seus direitos sempre postergados e respeitar suas pessoas, há! Isso nem se lhe fale!

A.VAZ

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Patria (Rio de Janeiro) no dia 21 de novembro de 1923

SOBRE O COOPERATIVISMO

IV

Os cooperativistas locaes pretendem ter descoberto a ultima forma de cooperação, em tudo differente de suas congeneres, perfeita, acabadinha, sem possiveis deslises, libertada, (?) salvadora, em uma palavra: o “succo”.

Ora a Historia nos mostra claramente não passar o cooperativismo de uma forma avelhantadissima, anachronica, condemnada pela pratica como incapaz de resolver a questão social, de tirar os trabalhadores da miseria em que vivem, extinguindo as classes.

Serve de escolho á sua verdadeira libertação porque se lhe antepõe na trilha recta para a integralisação do operariado numa humana sociedade para a transformação social.

Desde 1794 que se proclama a excellencia dessa doutrina economica tendo tido movimentos bastante intensos e extensos nos paizes europeus, como a Inglaterra, Allemanha, Italia, Belgica, etc. sem contudo ter solucionado a questão.

Parallelamente o operariado europeu começou a experimentar o socialismo parlamentar e houve até uma época que o cooperativismo era tido como um “pára-raios” contra as theorias de Karl Marx.

Mas, quer de uma, quer de outra theoria o proletariado não pôde extrair os elementos concretosindispensaveis á sua almejada emancipação e ainda hoje estão esperando pela extincção do salariato e abolição do “intermediario” e tambem pelas promessas dos socialistas de algibeira.

Foi, precisamente em virtude do fracasso destes que resultou a nova thoeria revolucionaria pregada pelos libertarios, para o exclarecimento dos escravisados, relegando os processos velhos de tudo esperar dos “seus legitimos representantes no parlamento”, do cooperativismo e suas derivantes: mutualismo, beneficiencialismo, etc.

Não ver isso, é ver mal.

Acceitar aquillo, é querer reanimar um cadaver.

Pertence ao passado, não é do nosso tempo.

Seus apostolos, porém, são manhosos (há os sinceros certamente) e, na defesa de interesses proprios revestem-se até de tonalidades miméticas para melhor empolgar, convencer, prender , dominar os trabalhadores menos avisados, conseguindo illaqueal-os em sua bôa fé.

Vejamos pois o modo por que se propõem emancipar os trabalhadores.

Um dos seus melhores mestres nol-o diz em cinco palavras: – “mediante a posse do capital”.

Este capital, no sentido da phrase, significa – dinheiro. Daqui se infere que os cooperativistas não são contra o dinheiro, e muito pelo contrario, justificam: – “o lucro é o mais poderoso elo de agremiação”.

Ora, ninguem desconhece que o dinheiro é o maior fator das desavenças humanas e que emquanto existir é escusado pensar em emancipação, em fraternidade, porque tem de haver quem compre e quem venda e, neste caso, quem retenha a producção.

E existindo retentores da producção, terão de existir os malsinados “intermediarios” e, em consequencia, os malfadados salariados. Não desapparecerão pobres e ricos uma vez que a moeda é accumulavel.

Os cooperativistas, entretanto theorisam: – “O fim essencial da cooperação é a fraternidade e o amor em conquista da paz entre os povos”.

Nada temos que nos admirar disso porquanto os mais audaciosos tramadores das guerras repetem instantemente a palavra “fraternidade”; os maiores usurarios proferem a todo o momento a palavra “egualdade” e os mais detestaveis oppressores deixam escapar-se-lhes dos labios ininterruptamente a palavra “liberdade”.

A.VAZ

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Patria (Rio de Janeiro) no dia 27 de novembro de 1923

SOBRE O COOPERATIVISMO

V

Os nossos amigos (sim, porque não lhes voltamos o mínimo rancor) visam pos, desenvolver tanto o cooperativismo, fundar tantas e tão numerosas cooperativas que permittam o anniquiliamento do capitalismo.

Sonho, puro sonho, e mal sonhado. Não vêm que seria oppor um capitalismo a outro? Não vêm que é absolutamente impossivel competir com a burguezia multi-milionaria? Não enchergam que mesmo trocada a riqueza de mãos, o que é pouco possível, a desigualdade persistirá?

Querendo curar um mal com outro?

Segundo os pontifices cá da terra o trabalhador aggrupa-seem syndicatos moldadinhos no decreto 1637 de janeiro de 1907; fundada a primeira secção – cooperativa de consumo. Como fornece a mercadoria aos associados pelos preços correntes, quando não elevados, progride, enriquece. Cria-se a cooperativa de credito – segunda secção do syndicato. Visto emprestar a juros como qualquer usurario, estabiliza-se estuante.

É bom então de se inaugurar a cooperativa de produção – terceira secção syndical.

Admittamos que tudo corre as mil maravilhas. Não há um só trabalhadordesunido, tudo está aggrupadinho, cooperando com seus companheiros. Produzem (todos sem excepção) e consomem prescindindo perfeitamente de “intermediarios”. Deu-se um baque no capitalismo ocioso, intrujão, methodico. Pobre capitalismo!

Este seria o decantado “syndicalismo cooperativista” em sua concepção mais ampla, mas temos certeza de que tanto não avançam suas aspirações. E aqui topamos com a alternativa: – ou se propõe destruir o capitalismo absorvente, promettendo salvar o operariado economicamente, o não se propõem e mentem, neste caso, faltam aos seus promettimentos.

Mas haverá alguem hoje, que desconheça as intensas relações e interdependencias do capitalismo com o governo?

Não é o Estado a expressão politica, o testa de ferro do capital? Não é Stinner quem governa a Allemanha, trata com a França, cuja direcção lhe é imprimida pelo “Comité de Forges”? Não é o capitalismo o supremo dirigente de todos os paizes?

Porque é, pois, que os cooperativistas não procuram alvejar os governos, se desejam, de facto a extinção do capitalismo?

Não vêm que se fosse possível pol-o em perigo o governo, com todo o seu acervo de leis, com toda a sua organização compressora, poria as coisas a seu geito?

Deus nos livre, porém, de semelhante heresia. São elles propriaos que nos revelam suas incoherencias quando escrevem: – “É indispensável que os individuos gosem todos os proveitos que lhe faculta a actual constituição da sociedade para que se inciem na remodelação que a nobilitará: – (pensam ainda em nobilitar a sociedade presente…) o desejo individualista de obter qualquer augmento ás economias particulares (espirito mercantilista) é o poderoso impulsor para bem entendido communismo (!) que resolverá a fraternidade atravez da perfeita comprehensão dos deveres do homem para com a humanidade”.

Onde é que se viu o “desejo individualista de obter quaquer augmento ás economias particulares” poderoso impulsor para o bem entendido communismo que resolverá a fraternidade?

Pois que o sordido desejo de enriquecer é um dos motivos de discordia. Todos querem subir sem se importarem com os que estão por baixo.

Continuemos na transcripção que é do Sr. Sarandy Raposo.

“Demais, sendo o cooperativismo construcção humana, deve procurar seus instrumentos na sociedade actual, e aperfeiçoal-os para os transformar insensivelmente, sem condemnações theoricas nem vislumbresde revoltas. O contraste sanccionará o ideal”.

Sem condemnações theoricas nem vislumbres de revoltas contra que?

Naturalmente contra a “sociedadeactual onde deve procurar seus instrumentos”.

“O contraste sanccionará o ideal”. Qual é o contraste de revoltas? Inconcussamente a passividade , o “deixa andar” a confiança num ‘todo-poderoso” num “enviado do Senhor” e para isso não se devm fazer “condemnações theoricas”.

É ou não o que temos asseverado?

É ou não a obediencia sem “tugir nem mugir” do servilismo que elles pregam?

A.VAZ

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Patria (Rio de Janeiro) no dia 28 de novembro de 1923

SOBRE O COOPERATIVISMO

VI

Pelo exposto em artigos anteriores ficou mais ou menos evidenciada a incapacidade cooperativista quanto a solução do problema social. Vimos pelo contrario que se adapta, se amolda a organização social vigente, pegada de vícios, onde a rapinagem predomina, a justiça é um mytho e a tyrania se erige em suprema potestade.

Como trabalhador que somos, deante a mystificação que pretendiam ou pretendem ainda fazer certos “arrivistas”, “ amigos desinteressados dos operarios” julgamos necessario e opportuno fazer algumas considerações a respeito para evitar futuras desillusões aos nossos companheiros de luta, ávidos de encontrarem os melhores meios para a solução do problema economico, social e moral, isto é, para a emancipação operaria e humana.

Suppomos ter usado um direito que a nós pertence mais do que aos taes “meneurs”, principalmente, cumprido um dever de trabalhador que se interessa pela causa da classe em que está integrado, que é a sua propria causa.

Demonstramos, pois, a insufficiencia ideologica do cooperativismo e sua incapacidade remodeladora da sociedade capitalista e a tendencia nefasta para a mercantilização do operariado, bem como transparecera possibilidade de intimas ligações entre seus precurssores e os dirigentes nacionaes.

Consta mesmo que o desenvolvimento cooperativista, a engazopação do proletariado, faz parte do programma do actual governo e que há um premio para o que mais cooperativistas arranjar.

Ulteriormente, se formos bafejados pelo tempo, ventilaremos esse assumpto.

Por hoje para concluirmos esta série, reportar-nos-emos unicamente á pratica cooperativista na actualidade, por isso devemos buscar nossos “elementos na sociedade actual”.

Ao fazerem a apologia desse novo-velho credo, seus propugnadores nos costumam acenar com o barateamento dos generos, sua excelente qualidade, a justeza do pezo, a presteza em sermos servidos e quejandas maravilhas que uma vez ditas encantam até os mais scepticos.

Conversando, entretanto, com um companheiro de officina que já foi empregado de uma cooperativa, talvez a mais forte das existentes na capital – a dos ferroviarios – soubemos, com supreza que na pratica pouco ou nada disso se observa.

Os preços, disse-nos, são perfeitamente iguaes aos de qualquer armazem. Cabe aqui um parenthesis: – um camarada viajando pelo interior, encontrou-se um dia com um ferroviario que, ao passar por um armazem lhe observou:

– Estas vendo essa carne secca?

– Sim, estou.

– Aqui custa dois mil réis e eu, na cooperativa, pago dois mil e quatrocentos.

– E por que não a deixas?

– Correria o risco de ser despedido.

A qualidade é a mesma porque compram no atacadista e tambem lá o freguez leva assucar de 2a por de 1a. Quanto ao pezo e conforme os freguezes.

Há os que recebem o pezo certinho ou mais ainda como uma pessoa que conhecemos muito. Para estes tambem a presteza e a qualidade são objectos a considerar.

Agora para o grosso dos associados, quantas vezes a nota do pedido vae acompanhada só com a metade da encommenda. As vezes esperam quazi um mês!

E que dizes da qualidade?

É obvio que quando se deteriora alguma coisa, como bons commerciantes, não podem jogal-a fora. Por exemplo, feijão bichado, toucinho rançoso, etc.

É verdade que não vai para os pontifices, mas para os pobres operarios cujas vistas se obliteram mais facilmente.

Quando uma destas “personas gratas” necessita de uma mercadoria, que já não está em boas condições, avisa-lhe immediatamente, afim de esperar nova remessa para levar a fresquinha.

– Será mentira? – É possivel. Nós só sabemos dizer inverdades…porque não incensamos os prosélitos dessa obsoleta doutrina “nobilitante”.

Não era do nosso intento descer tanto no escalpelamento do “bichinho” mas, como há quem mantenha ainda illusões achamos bem esclarecer.

– E as falcatruas, quando as cooperativas progridem?

– Elles mesmos dizem não poder evital-as.

Depois de tudo isto, façam os trabalhadores o que muito bem lhes aprouver, não pecam, porém, nunca de vista as considerações emittidas – O cooperativismo é uma panaceia como o parlamentarismo – só teem um merito: – é protelarem o advento da verdadeira emancipação operaria.

Basta ver como os governantes se interessam pela sua difusão.

A.VAZ

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Patria (Rio de Janeiro) no dia 11 de dezembro de 1923.

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