Evitemos o Confusionismo

A proposito das reuniões parciaes que os pintores e estucadores da Construcção Civil estão realizando

Há perto de um mez, appareceu nos jornaes uma convocação feita por um comité de “revolucionarios” anonymos, comité que se dizia composto de pintores e todos militantes “antigos, cançados e fortes” dos methodos de organização e de luta e já gastos pela U.O.C.C.

Tratava-se da fundação do Syndicato dos Pintores, sob o pretexto de que esta classe profissional estaria completamente dividida, desorganizada, e que não seria possivel fazer della o que já fora sem que se fizesse, primeiro, a “necessaria” revisão de costumes…

Combati immediatamente essa pretensão absurda, em artigo que publiquei na “A Patria”; e de tal modo o fiz que os anonymos “revolucionarios” do comité dos pintores não mais pensaram no seu syndicato nem na sua Federação de Industria.

Pelo menos não tornaram a dar signal de si, embora tivessem promettido annunciar, “dentro em breve”, o dia, hora e local da reunião.

A esse tempo, porque já houvessem pensado nisso ou porque entendessem de o fazer para de facto organizarem todos os pintores dentro da União dos Operarios em Construcção Civil, ou ainda para ver se descobriam, em algumas das suas reuniões, se os que tinha vontade de transformar a União em syndicato eram realmente “militantes” do syndicalismo revolucionario, – alguns camaradas, entre elles Cavalcante, Garrido, Pedro do Valle e Aniceto – em cujas intenções ninguem poderá ver o espirito divisionista do referido comité – resolveram effectuar algumas reuniões seccionais, sob a allegação, aliás justíssima, de term necessidade de tratar de seus interesses profissionaes.

Do que na primeira dessas reuniões se passou já “A Patria” deu notícia.

Foram tratados varios assumptos como a crescente acrestia de vida em face da insufficiencia indiscutivel dos salarios, a necessidade da organização dos pintores por casas (officinas), obras, abolição completa do fornecimento das ferramentas (espatulas, etc.) e de tudo que possa concorrer para prejudicar os interesses dos pintores em particular e aos trabalhadores da industria em geral.

Ficou resolvido reunir todos as sextas-feiras: e que, na reunião proxima se constituisse uma commissão para organizar uma estatistica relativamente ao numero e importancia das casas que exploram o ramo da pintura.

Nem uma só voz se ergueu para lembrar ou propor a formação do syndicato que, se dermos crédito ao que disse o “comité dos syndicalistas anonymos” deveria ser a maior preoccupação dos pintores de construcção civil.

Os factos, portanto, comprovaram a razão, da que eu havia dito; e além disso, desmentiram categoricamente as affirmações feitas no manifesto-convocação que o “comité” fez publicar.

Mas desse “comité” fazem parte aquelles que nestes ultimos tempos têm provocado todas as divergencias no seio dos trabalhadores de todas as industrias, elementos perigosissimos para a organização, já pela pyrrhonice dos seus propositos já pelo espirito de sizania que os anima.

E dahi vêm os motivos da reincidencia, da persistencia tendenciosa do “comité”.

Não se trata, em absoluto, da formação de qualquer syndicato profissional. Os trabalhadores da Construcção Civil que formam a União são ainda uma força precisamente porque estão integrados num só organismo; e se se dividirem tornar-se-ão fracos, impotentes, passarão a ser, além dos mais, motivos de discrepancias proficionalistas e corporativistas.

Aos militantes que decidiram convocar os pintores para as reuniões parciaes que se estão realizando, e sobre quem está toda a responsabilidade dos bons e maus resultados que dessas reuniões possam advir, eu lhes mostro, antes do resto, a ultima nota do famigerado “comité”:

“O Comité Pró-Syndicato dos Pintores e Annexos, tendo em vista a acceitação que teve a idéa da organização dos pintores em syndicato, vêm por esta forma, congratular-se com os camaradas que , na União dos Operarios em Construcção Civil “conquistaram” o direito de reunirem-se parcialemente. Não fosse a “nota” deste comité, em data de 11 do p.p. mez, e taes reuniões não se dariam, porque, teriam a combatel-as, os que de outras vezes já o fizeram, e se “enguliram” taes reuniões neste momento, é por sentirem-lhes fugir terreno debaixo das solas dos sapatos, agora é tarde…

A acceitação que teve a idéa da organização do Syndicato é tão patente, que não deixa a manor duvida sobre a organização do Syndicato. Se alguem ainda o duvida que ausculte a cada um dos “pintores militantes activos” e certificar-se-á desta verdade.

Ate’a reunião de 17 do corrente, onde lá estaremos todos irmanados para a organização do Syndicato dos Pintores e Annexos.”

Essa é, alias, a linguagem de todos os partidarios da…“frente única”.

Acho que os camaradas pintores devem procurar quem entre si está agindo com taes propositos, por demais conhecidos com propositos de indigna politiquice, tomando as necessarias precauções contra a deturpação velhaca que se vem fazendo dos objectivos que as secções profissionaes da U.O.C.C. pretendem realizar.

¾

Agora aos estucadores, que, segundo declararam pela imprensa, pretendem preparar a classe para novas conquistas moraes e materiaes.

São ainda, velhos militantes da União dos Operarios em Construcção Civil os que tomaram essa iniciativa.

Não há, pois, razão de qualquer movimento divisionista. Mas não seria melhor e mais coherente que os estucadores se reunissem na séde da sua propria associação?

Positivamente era isso que se deveria fazer.

Depois, os interesses dos estucadores, sob os pontos de vista moral e material são os interesses dos demais trabalhadores da Construcção Civil – os mesmos dos trabalhadores de todas as industrias.

A não ser para tratar de assumptos estrictamente profissionaes, nada há que justifique essas reuniões particulares.

Os estucadores, como os pintores, devem ter sempre em vista que todas as victorias alcançadas nos movimentos realizados são devidas as condições como a União soube organizar-se como se mantem organizada.

Era preciso que se tivesse provado a ineficacia da organização por industria, para que acceitassemos a experiencia doutro modo de organização.

Mas esse methodo, todavia, não seria mais o de organizar por profissões, por demais vetusto, decahido, que os trabalhadores de todos os paizes vão pondo à margem.

Tal methodo só poderia aproveitar neste momento, aos nossos inimigos. E como é a estes, principalmente, que devemos contrariar, segue-se que tudo devemos fazer de modo que se mostre e assegure a unidade da nossa acção e o desproposito e a inacceitabilidade dos seus “convites”, dos seus “apellos”, das suas “notas”, transbordantes de disciplina…e de “frentismo unicista”.

Marques da Costa

 

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 14 de agosto de 1923.

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