BILHETES DIARIOS

PEDRO MAURINI (na Casa de Detenção) – Estamos de accordo. Tambem acho que era preciso mostrar ao proletariado, á “massa” dos trabalhadores que forma as associações da éfetêérrejóta, o papel tristissimo que está representando, deixando-se levar pela mão sinistra dos renegados do anarquismo. Mas não sou de ferro. Faço o que posso. Já tenho dito algumas verdades e por ellas estou condemnado a uma nova agressão…nova embuscada.

Não quero dizer que me cale. Nada! Apenas quero lembrar que tu, mesmo no portuguez “acastelhanado” que me escreves, podes ajudar-me; e tambem os outros que não estão na “jaula” como tu estás e que entretanto aparecem amarrados de pés e mãos.

Haos por aqui aos montes, discordantes da obra camaleónica dos incolores do Comité Federal; entretanto não fazem nada, pelo menos de publico, que concorra para a necessaria prophylaxia do ambiente revolucionario.

Deixal-os!

Eu vou por aqui rabiscando como sei, sobre o que conheço.

Ando a “sonhar”, desde há dias com a forma a dar um artigo que pretendo escrever, escalpelisando o cynismo daquelles que foram capazes de sustentar que a “declaração” publicada no “O Paiz”, á guisa de manifesto “sambê”, tem o beneplacito das associações signatarias.

E aquella blague em relação á Construcção Civil de Nichteroy, não te faz rir? Homem, isto é de rebentar o coz das calças!

Qualquer dia tambem figurará na lista dos “poderosos organismos” a Federação Operaria do Rio de Janeiro.

É uma boa “tatica”…quando não se tem outros recursos.

Só estou para ver como mais tarde dirão, especificadamente, do numero de “socios quites” representados pela Confederação. Provavelmente deve ser assim: Alliança F. em marcenaria, “tantos”; União dos E. em Padarias, “tantos”, etc, etc. – e federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro…dez!

Sim, porque para aquella gente é assim mesmo; onde está a F.T.R.J. representada pelo Comité Federal não estão representados os adherentes daquelle organismo. É preciso que conste que a Federação está lá, mas é preciso que as federadas mandem delegados especiaes…É uma questão de numero nas votações simplesmente.

Ficas avisado, hein? Isso é “oká” por cá. Escreve alguma coisa e vamos acabar com as ultimas esperanças dos que pretendem bolchevisar o nosso meio syndical. As primeiras devem ter-se ido com os recursos que estavam controlados por Elias Iwanovitch…

Não sabes? Ah, Isso é outra historia!!

Adeusinho. Saude e Revolução.

Rio, 30/08/23

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 30 de agosto de 1923.

BILHETES DIARIOS

SYNVAL BORGES (na Central de Policia) – Ninguem sabe ao certo porque estás preso. O delegado Chagas informou ao juiz, a quem foi impetrado um “habeas corpus” a teu favor””És preso à ordem do marechal chefe de Policia, como medida garantidora da ordem publica…

Ora, tu sabes e todos nós sabemos, – e a policia sabe-o, tão bem quanto nós~- isso que elles chamam de “ordem publica” está continuamente ameaçada.

Para os do governo, para a burguezia, a “ordem” é o regimen. E contra o regimen está voltada toda a classe trabalhadora, entre quem a republica já não conta meia duzia de defensores siquer.

Não sabemos quando te darão a pouca liberdade que gosamos.

Mas desejamos todos que voltes em breve para o teu posto de luta, para o campo onde vivemos, de peito descoberto, a dar combate cerrado à ignorancia do povo, à cavilosidade dos esbirros que ninguem melhor que o Geminiano soube atirar contra nós e as prepotentes e arbitrarias acções dos chefetes que por ahi pululam a attestar a odiosidade dessa instituição garantidora e defensora do roubo legalizado.

Neste momento, meu caro Synval Borges, a tua falta se faz sentir entre os tecelões em greve. Era preciso que homens do teu temperamento e do teu valor ali aparecessem, a orientar os grevistas para o caminho do bom combate, das francas reivindicações. O movimento está decorrendo por entre constantes e desanimadoras affirmações de “ordem”, de “respeito ao governo e a constituição” – sobre os quaes assentam os reaes interesses do capitalismo ladravaz.

Não se pode esperar que desta luta saia mais que a dura experiência de factos que terão de apparecer fatalmente, a attentarem, a necessidade imperiosa de que a acção do proletariado, para ser victoriosamente coroada de recompensas merecidas, deve ser subversiva, abertamente revolucionaria e tanto quanto possivel expropriadora.

Infelizmente o medo, a pusilanimidade domina o ambiente! É tarde para que se possa operar a necessaria transformação da mentalidade daquella gente.

É tarde para agora?

`Poder-se-á esperar, todavia, que os bons como Herrera, Carreira e Silva e outros cuja palavra ardente tenho escutado cheio de enthusiasmo, venham a fazer da velha União um organismo digno, do passado cheio de tantas lutas gloriosas que os tecelões têm a assignalar os seus primeiros passos na organização syndical.

Esperamos-te, meu caro Synval, cheios de saudades mas sempre convencidos de que um dia as prisões se abrirão para todos, sob a metralha dos trabalhadores revolucionarios, numa imponente affirmação da Liberdade~!

Rio, 31/8/23

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 31 de agosto de 1923.

BILHETES DIARIOS

J.O. SOARES (tecelão em greve) – Recebi sua carta. Não me admiro que discorde do meu pensar. Tambem entre os grevistas há muitos que não lem pela sua cartilha.

V. nem mesmo comprehendeu o que eu disse ao Synval, no meu bilhete de hontem, de modo que chega a protestar contra affirmações que eu não fiz.

Sabe v. o que seja uma gréve revolucionaria? Não sabe.

E isso é de se lamentar!

Olhe que ser revolucionario não é ser dinamiteiro!

Essa concepção revolucionaria tem-na a polícia, de quasi todos nós. E v., todavia, “que se presa nunca  haver tomado parte em quaesquer attentados bombistas”, que não é “revolucionario”, há de concordar que os grevistas mais conscientes, ao abandonarem a fabrica, tivesse sabotado os teares não inutilizando-os mas pondo-os em termos de só funccionarem quando voltassem a fabrica cantando a victoria do seu movimento; e se, nas reuniões que se effectuam, em vez de aconselharem constantemente, massantemente, muita “ordem” e muito “respeito” à constituição, aconselhassem muita energia, muita resistencia, muita dignidade, muita altivez para reppelirem as humilhantes propostas do industrialismo – o gallo a cantar seria outro…

Não se zangue por tão pouco camarada! Aperte esses ossos e caminhemos para a Grande Revolução.

Rio, 1-9-23

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 10 de setembro de 1923.

 

BILHETES DIARIOS

JECA PROLETARIO – Supponho que sejaes o mesmo que já pretendeu enxovalhar-me em publicação feita no “O Paiz”, há cerca de dois mezes, sob o expressivo psudonimo de “Tono Sptar, communista”.

Deveis ser o mesmo.

A vossa preocupação em desmoralisar aquelles que sabeis se terem imposto no conceito do proletariado pela dedicação, pela sinceridade, e sobretudo pelo desprendimento com que trabalham pela organização syndical e pela propaganda libertaria; o cuidado que tendes de esconder vosso nome proprio, o nome pelo qual sejas porventura, conhecido nos meios obreiros; a vossa auto-denuncia de que pertenceis ao exercito de Lenine e os processos de ataque, concordantes em tudo com os processos e tacticas dos sequazes de Moscovia, deviam bastar para que ácerca de vosso estojo moral podesse o proletariado consciente formar um juizo seguro.

Mas de minha dignidade, a minha honra, as minhas convicções revolucionarias e tudo quanto desde há oito annos constitue o mais valioso, o mais caro patrimonio da minha vida cheia de vicissitudes – tão prenhe de soffrimentos e desgostos como isenta de consolações e de alegria, – exigem que eu quebre o silencio com que tenho respondido aos vossos mais acervos ataques, ás vossas infamias inominaveis, vindo de viseira erguida, de fronte a descoberto, atirar-vos, de repuxete, ás faces hediondas o lôdo com que pretendeis salpicar-me.

Vós, que não tendes caráter, que só sentes o que é mal, não podeis avaliar quanto fére a nossa alma de ideologo o ter de proferir vocabulos com os quaes tantas vezes nos esforçamos por exprimir a indignação que de nós se apossa!

Vós não comprehendeis o que seja sofrrimento moral, inflingido por accusações e insinuações miseraveis como as que vindes fazendo ao redor do meu nome.

Por isso o meu latego nem conseguirá marcar-vos as carnes.

Por isso permanecereis insencíveis ao que aqui escrevo.

Mas se é que tendes qualquer vislumbre de vergonha; ou, não tendes vergonha, se tendes ao menos aquella coragem que muitas vezes reveste os mais responsaveis, respondei:

– Quaes são as vossa intenções, declinando o meu nome, que até agora tenho sabido negar á propria policia, á qual tudo mostras estardes alliados? – Que pretendeis realizar, attribuindo-me a qualidade de secretario da Federação Operaria do Rio de Janeiro, quando sabeis que o secretario de facto é João de Brito, da A.O. em Calçados? – Porque dizeis que o secretario da F.O.R.J., na publicação feita a 30 do mez findo, “concita o proletariado a se levantar em greve geral de apoio aos tecelões”, quando aquelle secretario João de Brito, apenas subscreveu uma publicação do Comité Executivo Provisorio da F.O.R.J., exhortando as associações operarias “a acompanharem com interesse a actual greve dos tecelões, preparando-se para darem aos grevistas toda a solidariedade de que venham a precisar?”

Respondei!

Porque vêm essas insinuações á minha actividade revolucionaria exercida no Pará?

E porque não vos referis tambem á obra que realizei no Amazonas?

Apesar de tudo ella foi proficua!

Os da vossa eguala, “a quem, sem saber, temos sempre entre as pernas, como indignos pêrros”, segundo affirma Maurini, nunca conseguiram obstruir-me os passos.

Tenho conseguido sepre quebrar os dentes á calunia!

Para attestar a minha conducta eu possuia documentos importantes quando a policia do famigerado Geminiano me roubou miseravelmente todos os haveres por occasião do assalto em 1921 á Construcção Civil, do qual resultou ficarmos, eu e minha companheira e nossos filhinhos, desprovidos da propria roupa com que nos vestiamos. E hoje, se em realidade eu não tivesse captado a confiaça do proletariado com dedicação, a coragem e o desinteresse que têm sido o apanagio de toda a minha actividade, como organizador e como propagandista libertario, eu ainda dispunha de recursos com que vos amarrasse a lingua.

Mas nem vale a pena cital-os.

Sois irreponsavel!

Só por desabafo, ou por satisfação sempre devida aos que nos consideram é que homens como eu descem a tratar com renegados da vossa especie.

Descobri-vos. Declinae o vosso nome.

Ah! Que se os meus musculos não carecessem de vitalidade como carecem…Juro que vos esborracharia entre os dedos!

Havia de vos apertar a garganta, tanto, tanto, até que promettesseis converter-vos em gente de bem.

Já vae longe este bilhete e eu estou ennojado.

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 2 de setembro de 1923.

BILHETES DIARIOS

JOSÉ SOARES DOS REIS – Meu caro, sinto-me embaraçado para responder á sua carta. Primeiro, era preciso saber a que syndicato pertence, para, respondendo sinceramente, dizer-lhe qual a attitude compativel com a orientação até aqui observada por elle. Segundo, era ainda preciso saber quaes as suas idéas.

Isto é até indispensavel.

Sei lá quem você é!

Sei lá se as suas idéas são reformistas, ou francamente revolucionarias.

Se você perfilha qualquer credo politico, não poderá temer alliar-se a quem outra coisa não deseja senão enveredar por esse caminho, cheio de sinuosidades e de…velhacarias. Se não o é, se é cá dos nossos e não pretende confundir-se com os opportunistas da politicalha, francamente…nada temos a dizer.

Agora, se tem sido levado por politicos e por elles enganado e explorado, desejando saber se há um meio pelo qual se possa libertar dalguns erros e preconceitos aos quais se sinta preso, ah! Então a coisa é outra!

Ahi você tem a fazer o seguinte; tomar em conta que os trabalhadores devem agir directamente contra seus inimigos, – o Patronato e o Estado -, não firmando accordos nem estabelecendo ligações com outros que não sejam seus irmãos de luta, de sofrimento e de idéas.

Porque, note, há trabalhadores que lutam e que soffrem, mas estão tão chegados ao Patronato e ao Estado que não se póde ter com elles – nem se deve ter qualquer entendimento.

Em summa: a sua carta é muito laconica. Se se explicar melhor póde ser que faça com que eu tambem fale com mais clareza…

JOÃO M. RODRIGUES – Qual advogado qual nada! Ou vocês assumem uma attitude dygna de homens e forçam o patrãozinho a proceder doutro modo, e a entender-se com a “União”, ou desistam da luta, preparando-se para de outra vez o amarrotarem.

Advogado!?…Mau agouro!

Os exemplos que provem de casos taes devem bastar.

O advogado tem servido, quando muito, para impetrar ordens de “habeas corpus” a favor de presos ou ameaçados de o serem…Para mediador entre operarios e patrões é que nunca deve ser buscado.

Lembre-se desta maxima: – “A emancipação dos trabalhadores há de ser obra dos proprios trabalhadores”!

Não é porque o tenha dito Marx não!

É porque é isso mesmo.

Rio, 4/9/23

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 4 de setembro de 1923.

BILHETES DIARIOS

JOÃO ANICETO – Sinto muito ter de te contrariar, mas vejo-me forçado a fazel-o para salientar a verdade dos fatos de que falaste.

Na reunião do Comité Executivo da FORJ não foi tomada a deliberação a que te referiste hontem, em publicação feita n'”O Paiz”.

Isso seria o maior dos absurdos; seria a clamorosa repretição dos tão comentados “abusos de attribuições”, contra os quaes tantas vezes eu proprio me hei insurgido.

Não comprehendo mesmo o teu interesse em vir a publico com esse teu “assim não está direito”.

De todas as pessoas presentes, se é que estavam ali, como eu, possuidas de boas intenções, creio que nenhuma se recusará a subscrever a descripção que vou fazer, succinta, do que foi resolvido a respeito das emendas propostas pela Alliança dos F. em Marcenaria.

Vejamos se as coisas não se passaram assim:

O 20 secretario do Comité, dizendo ser conveniente, para um entendimento breve e satisfatorio, que os militantes das associações defendessem, nas respectivas assembléas, os mesmos principios, em relação ás alterações a fazer no pacto já approvado, passa a fazer largas considerações ao redor da proposta dos marceneiros, analysando ponto por ponto todas as emendas nella comprehendidas.

Mostrando com clareza as razões pelas quaes entende que as associações não podem concordar com a denominação Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, porque esta, mal ou bem, ainda vive, não convindo estabelecerse luta por tão pouco, e declarando tambem porque acha não se dever abrir mão do preambulo, visto que este havia sido acceite, sem objeções, por todas as federadas, o 20 secretario propõe, e os delegados presentes concordam, que se officie aos marceneiros para ver, antes de se levarem cópias da proposta aos syndicatos, se é possivel um entendimento prévio com a Alliança, capaz de facilitar a discussão as emendas que esta propoz e o consequente accordo entre todas as associações interessadas.

Ahi esta, caro camarada, o que se passou.

O Comité não “acceitou” nem “reccusou” coisa alguma: estudou o assumpto, coordenou opiniões e deliberou officiar aos marceneiros no sentido de conseguir a “simplificação” da intrincada divergencia.

Eis ahi.

E digo “estudou o assumpto e coordenou opiniões”, porque não foi só o 20 secretario a falar nem dar as “cartas”…

Não faltava mais nada senão que principiasse, do lado de cá, por onde os do lado de lá estão acabando: pela dictadura!

Rio, 5-9-23

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 5 de setembro de 1923.

BILHETES DIARIOS

A. MARQUES DA SILVA (secretario geral da União dos E. em Padaria) – Tenho em mão a carta em que o Aristoteles, arvorado a teu interprete, communica a attitude da União em face dos ataques directos à “Eftêerrejota”.

É uma carta atrevida, vasada em termos rancorosos exactamente igual, “em tudo, a carta que tive o desprazer de ler, outro dia, para os delegados que as associações locaes mandaram á séde da rua Buenos Aires, a 12 do mez p. findo, com o fim de realizarem o entendimento proposto pelos sensiveis da Federação…

Essa carta veio corroborar uma nota escripta nesta secção, com referencia ao “boycotte” votado e communicado á redacção de “A Patria” pela União dos Alfaiates.

Trata-se, pois, duma medida systhematica, de ataque, á minha microscopica figura…

Estou em vos agradecer, sabes?

Estaes preocupadissimos commigo e isso me eleva, me dá importancia…o contrario precisamente, do que pretendeis conseguir.

E accusam-nos de (ilegível)armos trabalhadores de nossas associações (como se fossem carneiros!) a votarem resoluções insensatas, incongruentes!!

Que dizer dos abusos, das asneiras, das incoherencias que estaes practicabdo? Nada. Não dizer nada é que será acertar.

Atascae-vos. Metei os pés pelas mãos. Confundi “alhos com bugalhos”…

Haveis de adeantar muito com isso!

E tu, particularmente, has de tirar um resultado com passares carta branca ao outro, para te substituir!

Has de, que eu sei!…

Pensaes que alguem desconhece, aqui, que toda a campanha que se me está movendo é obra de adversarios pessoaes.

Julgas porventura, que não está descoberto o plano difamatorio, desprestigiador, tecido contra mim pelos meus inimigos bolchevistas?

Pois estaes enganados!

Toda gente o sabe. E tanto assim que ainda hontem, após uma scena de pugilato que presenceamos, dizia-me o dr. Diniz Junior:

– Julguei que o aggredido era você.

– Eu!?

– Positivamente, accrescentou o director de “A Patria”, é o que podemos esperar que os communistas façam com você, a qualquer hora…

A tempera do Aristoteles, meu caro, é já bem conhecida.

O recurso das cartas não pega. O dos “murros”, quando muito, pode irritar e acarretar maiores males.

Rio, 5/9/923

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 6 de setembro de 1923.

BILHETES DIARIOS

A. MARQUES DA SILVA (Secretario geral da U.E. Padaria) – Ainda, amigo, para te dizer que mais se enraiza, cada dia e cada hora que passam a certeza de que as associações que formam a “Eftêerrejota” estão sendo simples instrumentos nas mãos de meia duzia de inimigos rancorosos que eu tenho.

Dos que tomaram parte “na reunião das commissões executivas das associações federadas a Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, convocada pelo Centro dos Operarios em Pedreiras”, nem todos são meus inimigos…Sempre é bom frizar.

Todavia, as resoluções tomadas nessa reunião foram taes que a campanha se desenvolve á vontade dos meus impagaveis adversarios.

O que me admira, entretanto, o que eu extranho no meio de todas as burrices commettidas, é o facto de vos haverdes convencido de que representais, cinco que sois, alguma coisa entre todos os organismos operarios do Rio de Janeiro!

Que pobresa mental!

E então, dize-me cá: pelo facto de “A Patria” publicar alguns artigos meus, devidamente assignados, nos quaes se discorde sinceramente da acção em tudo velhaca e divisionista do Comité Federal da “Eftêerrejota”; (do Comité, notaste? Do comité, porque afinal de contas a Federação ainda nem tratou o caso, tal o desinteresse que tem por tudo, ou melhor, tão ficticiamente vive…); pela razão desses artigos, ou dos conceitos nelles expedidos, que bem poderiam ser respondidos pelos “sensiveis” do Comité, resolveis “boycottar” o jornal?!

Tolos que sois!

E que linguagem então tem sido a minha que tanto vos irrita?

Tenho sido assim irreverente?

Não tenho mesmo deixado passar despercebidas as vossas manhas, as vossas deslealdades.

Consiste nisso, realmente, um pouco da minha audacia.

¾

J.O. SOARES (tecelão) – Ao ler a noticia que o Duarte escreveu para a Secção Trabalhista de “A Patria” de hontem, a respeito da “demonstração de força e solidariedade” que os tecelões em greve vão levar a effeito em passeata pelas ruas da cidade até o Ministerio da Justiça, “para revelar ao honrado titular daquella pasta os ultimos “trucs” do capitalismo”, lembrei-me de V., da carta que há dias me escreveu, protestando contra a manifestação que fiz em bilhete que dirigi ao Synval Borges, de descontentamento pelo caracter pacifico do actual movimento – e adquiri desde logo a convicção de que V. foi um dos que votaram a favor desse indecoroso beija-mão.

Quis, por isso, escrever estas linhas exteriorisando mais uma vez o desgosto que me vae nalma pela falta de espirito revolucionario que os grévistas estão sendo constrangidos a demonstrar.

Não me podia mesmo furtar ao desejo de escrevel-as.

Faço-o cheio de contentamento porque augmentará a roda dos que me cercam e desejam derrotar-me. Mas faço-o satisfeito.

Faço-o cheio de contentamento por ver que de todos os pretensos “dirigentes” operarios e todos os que escrevem sobre a gréve dos tecelões nenhum teve ainda a coragem precisa para discordar da orientação dubia que os chamados “leaders” do movimento têm sustentado.

Prefiro mil vezes ser acoimado com todos os epithetos que occorrem aos meus adversarios, que ter de approvar com o meu silencio essa bambochata indecente, essa manifestação ao ministro, que não é mais que um attestado do embrutecimento em que os tecelões cahiram depois que instituiram na sua associação o cargo de presidente, dando a elle a importancia e a autoridade de que agora se arroga.

Rio, 7/9/23

Marques da Costa

Artigo publicado na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 7 de setembro de 1923. No dia seguinte a publicação deste artigo de Marques da Costa criticando a condução da greve e a diretoria da UOFT, saiu na Secção Operaria extensa matéria entitulada “A Gréve dos Tecelões”, onde foi transcrito o manifesto distribuído ao público durante a passeata ao Ministério da Justiça, noticiando a paralisação das fábricas de algodão, além de outros informes. Esta matéria é concluída da seguinte forma: “Terminando e no intuito de neutralizar equivocos, a União dos Operarios em Fabricas de Tecidos declara ao publico que o actual movimento de classe não representa, não tem ligação com quaesquer outras agitações, mas é apenas restricto á uma pequena melhoria de caracter economico – A directoria“. O sindicalismo amarelo se consolidara em uma das principais entidades sindicais do Rio de Janeiro, fundada em 1918 no seio do sindicalismo revolucionário.

Nunca deixamos de publicar nesta secção, as notas, os communicados ou as convocações que as associações operarias nos dirigem. Tambem nunca negamos guarida a artigos de collaboração ou de controversia, mormente a estes, e não nos recusaremos nunca a lhes dar acolhimento se em realidade se procura controverter no terreno das idéas mas fóra de quaesquer propositos provocadores de questões personalissimas ou tendenciosas.

Não é verdadeira a noticia de que esta secção tenha atacado a Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, ou quaesquer das suas federadas. Ao contrario, estas é que têm atacado e respondido a individuos que sob sua particular responsabilidade têm falado da federação.

Esclarecidas assim as coisas, saiba-se que não nos molestam as attitudes dos que procuram nos syndicatos influenciados pelos adversarios do redactor desta secção, desprestigiar o jornal que em realidade tem prestado alguns serviços á organização e á propaganda.

Nunca tivemos a pretenção de agradar a todo mundo e sobram-nos razões para estarmos contentes ao saber que são cinco, apenas as associações (?) que nos hostilizam.

Nota publicada na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 7 de setembro de 1923.

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