A trágica epopéia do povo ibérico

Marques da Costa

Como e porque estalou o movimento revolucionário de 5 de outubro. O Partido Socialista, apoiado pela U.G.T., prepara-se para o assalto ao poder

Como se deu a intervenção da F.A.I. e da C.N.T., nesta gréve insurreicional – “Cataluña” livre! – Asturias em chamas – Salvar-se-á uma vez mais a República?

Madrid, 13 de outubro de 1934

Camaradas do Brasil

Havereis extranhado o meu prolongado silêncio. É natural. Quando se está acostumado a Ter notícias, embora pouco constantes, de um camarada ou de um amigo, sente a gente, profundo e doloroso, um vácuo, uma falta sensivel, no que podemos chamar: satisfação regular das exigências do espírito. Comigo, em relação a vós, dá-se outro tanto. Ou melhor: deu-se isso mesmo, durante muito tempo.

Durante anos, transitando de terra em terra, de cárcere em cárcere, sofrendo desgostos, dissabores e privações de todo gênero, lembrava-me daqueles que, como vós, podiam minorar as atribulações por que passava, com uma simples carta, que fosse um incentivo, um encorajamento, uma consoloção…E dava-me ao trabalho – Quasi sempre inutil de escrever, a uns hoje, amanhã a outros…

Só uma ou outra vez consegui receber carta dalguns daqueles que tinham sido, mais do que camaradas, amigos intimos – e de quem uma violenta medida policial me afastara.

E só depois de 1928, – quando já havia passado oito meses nas cadeias civis e fortalezas e esquadras de Portugal; dois anos de deportação nas inóspitas regiões da África ocidental e quasi um ano e meio vagando por terras diversas dos continentes espanhol e português; quando perseguido por todos os lados, tive que saír do Porto (onde havia regressado acossado pela falta de recursos), atravessar a Espanha de novo e refugiar-me em França, – só depois de passados mais de 4 anos da minha saída do Brasil, consegui ter de vós notícias directas e mais ou menos assíduas.

Depois, com a reaparição da “A Plebe”, comecei a poder suportar melhor a ausência das vossas cartas, que rarearam sempre.

Com o recebimento, embora irregular, do velho orgão do nosso movimento operário e anarquista, comecei de novo a sentir-me mais intimamente ligado, ainda que só espiritualmente, á vossa amisade…e isto sem que vossa sensibilidade se apercebesse…

Veio depois aquele período mais intenso da minha correspondência para “A Plebe”, que durou até os fins do ano passado, quando, por causa da revolução de Dezembro, fui expulso para a França.

Dei-vos notícias minhas, do “Carcel Modelo” de Madrid – ao mesmo tempo que vos dei notícias do movimento que então estava “ardendo” em toda Espanha.

Tendo ousado reentrar em Espanha pouco tempo depois, já que não podia permanecer em França, por dalí Ter sido espulso dois anos antes, tornei a escrever-vos. Mas não recebi resposta alguma. Minha filha, mais tarde, recebeu para mim uma carta vossa. Eu, que tinha reentrado em Espanha, indo para Barcelona (estando ainda o Estado espanhol sob o regime excepcional de “Estado de Alarme”), tive que vir de novo para Madrid, por questões de família. Mas imediatamente depois, apesar de todos os cuidados, fui descoberto e tive que fugir para não ser preso. Entrei então na clandestinidade, em Portugal, donde só mais tarde regressei.

Foi nesse interregno que Wilma vos escreveu e vos mandou, segundo me disse, uma “carta” que eu escrevi durante minha estadia em Valencia, quando vim de Barcelona para Madrid – e que por qualquer motivo não havia mandado para “A Plebe”.

Hoje, depois de ter passado oito dias em plena actividade revolucionária, nesta Madrid ultra-conservadora, onde os reaccionarios aristocratas e os burocratas de todos os matizes resistem, como nunca vi assim, a invasão já inevitavel do pensamento e acção anarquista, senti de novo invadir-me a nostalgia, o desejo irresistível de comunicar-me com os meus irmãos do Brasil – com aqueles em que tantas vezes pensei durante êstes dias de duro e intenso combate pela liberdade.

Lembrei-me de vós, e escrevi expressamente para “A Plebe” algumas linhas, que mandei para o Correio há uns três dias – da segunda revolução. (*) Mas é de crer que ainda hoje esteja retida a correspondência daqueles dias, visto que, maugrado os desejos do Govêrno e as suas públicas informações só o telégrafo funcionou regularmente em suas atribuições relacionadas com o Extrangeiro. É pois de esperar que não vos cheguem aquelas linhas antes destas.

Hoje, o movimento entrou  francamente em seu período de franco declínio, posso considerar-me salvo das mortíferas consequências dos embates armados que se registraram na capital. Mas isto não quer dizer que não possa haver que lamentar novas perdas, pois a polícia, os guardas civis (os tétricos bicórnios!) e os de assalto, não poupam aqueles a quem conhecem como revolucionarios, desde que os encontrem em lugar e circunstâncias favoráveis aos seus criminosos desígnios.

A greve geral revolucionária que estalou no dia 5, por toda a Espanha, foi de iniciativa da U.G.T. União Geral dos Trabalhadores (dirigida pelos socialistas) e do Partido Socialista. Tinha, por isso, objectivos diferentes do passado movimento de Dezembro, promovido e sustentado pela C.N.T. (orientada pelos anarquistas). Os socialistas – os chefes do Partido e da U.G.T., claro está! – não pretendiam mais que implantar uma ditadura de classe. Mas a adesão da C.N.T. e da F.A.I., cujos elementos se somaram, por toda a parte, á rebelião, proclamando uma vez mais o comunismo libertário em muitas povoações e algumas cidades como Gijón e Tarragona, bastou para que o movimento assumisse desde os primeiros momentos todas as características duma revolução netamente expropriadora e anarquista.

O desconcêrto dos chefes socialistas atingiu o auge, porque o povo levou, indiscutivelmente, a revolução por caminhos que elês, reformistas legalitários, não estavam realmente dispostos a percorrer.

Á hora em que te escrevo (manhã do dia 14) a gréve geral e os conflitos armados estão em Madrid, terminados, ainda que a maior parte dos serviços públicos não tenham podido ser reestabelecidos. Mas em Corunha, Andaluzia e, principalmente, nas Asturias, não foi possível o governo reestabelecer sequer a normalidade aparente de Madrid.

Oviedo, sobre cuja cidade avançaram, desde vários pontos, de Asturias, forças do Exercito, do Tercio e da Armada, foi tomada hontem aos revolucionários. Mas Bacaraldo e Mieres e toda a Cuenca Minera de Sama-Langreo continua em armas.

Se não for capturado, mandar-vos-hei algumas pequenas cronicas, continuando o breve relato que fiz na croniqueta que puz, para “A Plebe”, há 3 dias no Correio.

M. da Costa

Artigos de José Marques da Costa publicados no jornal “A Plebe” de 10 de novembro de 1934, Nova Fase, Ano 2, N.75.

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