A MORTE DE UM GÊNIO E A AUDACIA DE CHARLATÃO

Já não existe mais o nosso querido Octavio, o admiravel cantor dos “murués e aturiás à beira d’água”!

Aquelle rapazola que aos vinte annos se nos revelou a extraordinaria capacidade productora de varios e consideraveis livros, desde a Mineralogia e a geologia dos canaes e das lagoas, em 1908, até aos Mundos fragmentários, em 1922, já não vive!

Esse Brandão que para ahi anda, numa indescreptivel flacidez de espirito, chasqueando de tudo quanto conhecemos do inolvidavel e flammejante revolucionario não para dum charlatão vulgar. É preciso que o proletariado a quem de preferencia o impostor se dirige, tenha bem presente a figura do extraordinario poeta do Hymno da convergencia, para não os deixar imbuir pela parla conspurcante e desprestigiosa do charlataneador.

O Octavio Brandão morreu!

Já não existe o cinzelador maravilhoso do dyonisiaco Veda do Mundo Novo”!

Se não podemos deixar se reconhecer nesse feirante que por ahi se exibe, ávido de reputação, a encarnação viva do nosso querido e saudoso Octavio, tambem é innegavel a flagrancia contrastadora entre as idéas do anarchista de hontem e as do Brandão de hoje.

Meus irmãos, póde ser que as minhas palavras não encerrem toda a verdade; mas sempre vos digo que o vosso Octavio era um perfeito apostolisador da Amargura! Ainda temos ahi os seus escriptos a nol-o confirmar – os seus estupendos surtos, em que o formidavel extravasador de sublimidades ideologicas nos incitava a “repulsar” – como lhe repulsou – o baptismo, a chrisma, a confissão, a communhão, a immortalidade da obra, tudo quanto não fôr Lealdade ou Virilidade, a truaneria patriotica, a honestidade dos burguezes, a clastidade dos clericaes, a independencia dos burocratas, a revelação biblica, todos os dogmas e mythos, a crença na lei da autoridade, nos nossos sabios medalhonicos, na devoção, na disciplina, no suffragio, na superioridade dos estrangeiros, na palavra dos politicos.

Eis, ahi estão claramente reflectidos no pensamento do igniscente iconoclasta e profundo ideologo que em vida se chamava Octavio Brandão.

Meus irmãos, é possivel que as minhas palavras não contenham a verdade toda; mas sempre vos digo que o nosso Octavio – o verdadeiro Octavio – já morreu!

Não importa pois, que a “morte da materia de um homem de genio é o inicio da Immortalidade do seu Pensamento”.

Nós saberemos immortalizar o pensamento de Octavio meus irmãos, continuando sua obra!

Vamos! Que a coragem não nos falte!

Enxotemos para longe de nós – para além do campo proletario, os falsos apostolos – os Octavios anti-dyonisiacos – propagadores da dictadura operaria, do capitalismo e do autoritarismo estataes.

Marques da Costa

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 24 de abril de 1923.

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