Uma Erupção de Américas Subterrâneas: a Revolução Mexicana de 1910-

Sérgio Mesquita

Entre as revoluções que contribuíram para tornar o século XX um período de intensas lutas políticas e sociais, a Revolução Mexicana não fica entre as menores. Ela completa cem anos este ano, e gostaríamos de, relembrando-a, apontar alguns aspectos que, tal como em outros tempos através desses cem anos, podem servir como pontos de partida para reflexões úteis.

O termo “revolução” tem sido muitíssimo utilizado para designar praticamente todo tipo de luta política e social, inclusive as de menor relevância.  A história do Brasil, nesse sentido, está repleta de “revoluções”, assim crismadas pelos historiadores e publicistas: “Revolução Farroupilha”, “Revolução de 1817”, “Revolução de 1930”, “Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo”, e por aí vai.  No entanto, se tentássemos avaliar quão intenso é o caráter “revolucionário” de um determinado evento, poderíamos utilizar como critérios: a medida em que este consegue atingir com força o conjunto da sociedade na qual aconteceu, revolvendo suas estruturas, e a influência que este exerce sobre a atividade política e social pelos tempos afora, até em outras sociedades.  Por exemplo, trabalhos desenvolvidos pelos historiadores têm mostrado com bastante solidez a grande influência da “Revolução Russa” de 1917, como estímulo e modelo de ação para os militantes de esquerda brasileiros.   No entanto, antes que essa revolução, eclodindo no Velho Mundo, em plena Primeira Guerra Mundial, magnetizasse as atenções, outro processo de luta revolucionária ocorria, cá mesmo na América.  Era a grande convulsão política e social que se desenrolou nos anos 1910 no México.  Fatores novos e poderosos deram amplitude ao movimento: o avanço das relações capitalistas no país, impulsionado pela modernização da infraestrutura e pelo crescimento da indústria e dos serviços.  Tais fatores deram maior presença na vida nacional aos setores burgueses e ao operariado, sendo que uma parte deste foi atraída para a militância em diversas vertentes do socialismo, inclusive o anarquismo.

À época, a república do México era governada pelo ditador Porfirio Diaz, chamado “O Presidente Perpétuo” por causa da sua permanência de décadas no poder, vencendo eleições fraudadas e controlando com mão de ferro todas as instâncias do governo.  O descontentamento da oposição a esse estilo de governo acabou por articular, no início da década de 1910, uma tentativa armada de derrubar o velho presidente.  Tal rebelião eclodiu no começo sob a forma de uma luta de fundo político-institucional (por eleições livres e “limpas”, por observância de princípios liberais de representação político-partidária etc.), dentro das modalidades de luta política usuais nas repúblicas oligárquicas latino-americanas, até mesmo no que tange à luta armada.  Seu principal líder, Madero, conseguiu expulsar Díaz do poder e assumir a presidência.  Contudo, as hesitações de Madero em ampliar a conquista, atendendo aos interesses das classes menos favorecidas e prosseguindo no desmonte do Estado porfirista, corrupto, reacionário e repressor, permitiram sua própria queda.  Um golpe de Estado, chefiado por Huerta, antigo general porfirista, levou a uma luta mais acirrada pelo poder no México.  A oposição tradicional, que se mobilizou contra o golpe, o fez em nome do respeito à Constituição e aos direitos de inspiração liberal.  Porém, outros elementos de luta vinham à tona: as reivindicações dos camponeses, operários e indigentes do campo e da cidade.  Principalmente no campo, a luta social se ampliou: o problema camponês do acesso à terra e o da exploração sufocante por parte dos “hacendados” (grandes fazendeiros) fez com que a população rural se envolvesse ativamente nas batalhas da revolução.  Esta representava a oportunidade de reverter a injusta divisão da terra que concentrava cada vez mais a propriedade nas mãos de pouquíssimos latifundiários e empresas, e de obter direitos para o proletariado rural e os pequenos proprietários, que viviam oprimidos pelas dívidas, pelo excesso de trabalho e pela violência dos grandes senhores e da polícia rural a serviço do Estado.

A radicalização da revolução permitiu que este velhíssimo problema do camponês se configurasse em programas políticos e gritos de guerra, ainda mais que a modernização capitalista no México retirava a pouca terra ainda de posse do campesinato, num ritmo bem mais acelerado.  No meio de tudo isso, os grupos indígenas que tradicionalmente mantinham, a duras penas, suas terras comunais, viam-se cada vez mais premidos pelas manobras de expropriação desenvolvidas pelo Estado, pelos “hacendados” e por empresas, muitas delas estrangeiras, como as norte-americanas.  Temos, assim, dentro de um problema camponês, uma questão indígena na Revolução Mexicana.  Neste ponto, a exploração capitalista e a política repressiva do Estado eram vistas, por estas comunidades de origem pré-colombiana, como continuidade histórica da violência da Conquista espanhola no México.  A colocação na ordem do dia dessas problemáticas básicas infundiu um caráter incendiário à revolução, e que a fez/faz destacar-se entre os grandes conflitos ocorridos na América Latina e no mundo.

Entre os diversos movimentos camponeses agindo na revolução, destacaram-se dois: um ao norte do país, sob a chefia de Pancho Villa, e outro ao sul, marcadamente indígena, cujo líder mais importante foi Emiliano Zapata.  Embora ambos os movimentos fossem oriundos da mesma classe social, o campesinato, eles não tiveram sucesso na tentativa de se articularem na luta por “terra e liberdade” (lema caro aos zapatistas).  Entre as razões apresentadas pelos pesquisadores para a não-consolidação de uma aliança, que talvez tivesse dado uma sobrevida mais vigorosa ao conjunto do movimento camponês nessa luta revolucionária, estariam as diferenças de ambiência social entre o Norte (de camponeses mais individualistas) e as comunidades indígenas do Sul (mais coletivistas).  De qualquer forma, até por força das conjunturas do país, os zapatistas privilegiaram a estratégia de limitar o mais possível sua ação ao estado de Morelos, com o fito de consolidarem ali a conquista e a distribuição das terras entre o povo.  Não puderam assim desfrutar da aliança com o poderoso exército villista, o qual, no decorrer das peripécias da guerra, acabou por sua vez encontrando o desgaste e a derrota militar.  Também o movimento camponês como um todo não pôde contar com uma aliança com os trabalhadores urbanos.  Disto também se ressentiram os militantes de tendência anarquista, como o foi o intelectual Ricardo Flores Magon e seus correligionários .  Os magonistas apoiaram e lutaram em prol dos interesses das classes desfavorecidas no decorrer da revolução, e as grandes reivindicações dos camponeses faziam parte de seu próprio programa para o México.  Contudo, outra força potencialmente radical, os operários organizados, acabou em boa parte sendo cooptada e dirigida pelos líderes revolucionários moderados, constitucionalistas e burgueses.  Na nova configuração política mexicana, que emergiu ao final da guerra revolucionária, estabeleceu-se um Estado burocrático e repressor, que inclusive assumiu oficialmente – e com exclusividade – o papel de portador da “revolução” e de suas conquistas.  No bojo disso, instalou-se o virtual governo de um partido único, o PRI, praticamente reproduzindo nas urnas o fenômeno do continuísmo de Don Porfírio em eleições perpetuamente fraudadas.

No entanto, a eficiência burocrática desse novo Estado não pôde abafar contradições e problemas históricos da sociedade – como não poderia deixar de ser.  Hoje, as manifestações da insatisfação camponesa e indígena nos estados de Chiapas, Oaxaca e Morelos testemunham a permanência das disparidades sociais e econômicas que impulsionaram o processo revolucionário no início do século passado.  Além disso, evidencia-se que, para além de críticos e simplesmente reclamantes, os movimentos criados por esta insatisfação trazem propostas e perspectivas originais e enraizadas na realidade concreta das populações.  Estas propostas e formas de encarar a vida social e política manifestaram-se no desenrolar da revolução mexicana, nas falas e nas providências que os movimentos populares da época tomaram para começar a construção de uma nova sociedade, livre das opressões do Estado, das classes dominantes e do imperialismo estrangeiro.  Muitas dessas propostas, dessas perspectivas partiram dos meios culturais indígenas, estranhos ao modo de ver “ocidental”. Partiram também do dia-a-dia coletivo do camponês mexicano, sem as peias das contingências teóricas e organizacionais da direita e da esquerda autoritária.  Daí, revelam-se até hoje ricas em lições, que podem contribuir na busca da liberdade e da dignidade do povo, não só do México, mas de outros lugares.  O próprio anarquismo tenta dialogar e trocar experiências com estas lições, tal como já o fez durante a Revolução Mexicana, através do magonismo, e ainda o faz.  Que propostas, que perspectivas são essas?  A memória e a análise da Revolução Mexicana de 1910 fornecem uma excelente ocasião para conhecer tais propostas e perspectivas.  Que viva México!  Arriba a los que luchan!

Sergio Mesquita, julho/agosto 2010.

2 Respostas to “Uma Erupção de Américas Subterrâneas: a Revolução Mexicana de 1910 – Sérgio Mesquita”

  1. Sergio Luiz Monteiro Mesquita Says:

    Até que ficou bom.

  2. Fábio Says:

    Artigo bem interessante.

    Eu realizei a minha investigação de mestrado sobre a Repercussão da Revolução Mexicana nos jornais operários brasileiros, concentrados mais no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. Além da Voz do Trabalhador e Guerra Social, trabalhei com mais 7 títulos.
    Caso queira, podemos manter algum contato.
    Abr,

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