O QUE FOI A EXCURSÃO DOS TRABALHADORES CARIOCAS A CIDADE DE PETROPOLIS

A recepção – O espetaculo no Theatro Capitolio – Uma sessão solenne na séde da U.O. Fabricas de Tecidos – O almoço da grande familia… – A tarde de domingo – O programma improvisado de uma grande festa – O Palacio de Crystal, theatro das maiores demosntrações de amizade e fraternidade – A despedida – O regresso.

Já dissemos em nossa edição de domingo, como se realizou o embarque dos elementos da orchestra e do corpo scenico do grupo “Renovação” que subiram para Petropolis no trem das 17,50 de sabbado e que foram para tomar parte no espetaculo realizado no Theatro Capitolio. Vamos dizer agora de como foram recebidos os excursionistas, como decorreu o espetaculo, e ainda e sobretudo do que se passou durante o domingo que, como os nossos leitores devem estar lembrados, fôra destinado ás visitas que se deviam realziar aos pontos mais pitorescos da apregoada cidade dos cravos e das magnolias.

A recepção do corpo scenico e da orchestra foi feita na “gare” de Petropolis por uma commissão especial, que apresentou aos visitantes os cumprimentos do operariado petropolitano, conduzindo-os em seguida ao Theatro Capitolio, onde, desde as 19 horas estavam sendo exibidos os films constantes da parte cinematografica do espetaculo.

Apos a exhibição dos tres films, entre os quaes figurava “O Fantasma do Lobo Cinzento”, um drama de superstição e de odio em que H.B. Warner tem a seu encargo o principal papel, o “Gremio Dramatico Arte e Natura” deu inicio ás representações ao palco, interpretando a comedia em um acto “Peccado de Simonia”, original do anarchista portuguez Neno Vasco, já fallecido, de quem o proletariado brasileiro conhece innumeras e valiosas produções.

Seria injusto fazer qualquer referencia particular ao modo como este ou aquelle amador se houve no desempenho da sua parte. Todos se portaram a contento da platéa que não fez rogados os seus enthusiasticos applausos aos esforçados amadores.

A seguir teve logar a conferencia annunciada. Carlos Dias, como sempre, discorreu com muita intelligencia sobre o thema escolhido – “Uma concepção ellevada da vida” – tendo conseguido prender em absoluto a precisosa attenção da assistencia que nós computamos em mais de mil e duzentas pessoas.

Ao terminar, Carlos Dias foi muito aplaudido.

Apresentamos-lhe tambem os nossos parabens, pela facilidade e precisão dos detalhes com que havia exposto os seus ideaes, ouvindo delle este lamento:

– Pena foi que me obrigaram a falar somente uma hora!…

A segunda parte theatral estava a cargo do corpo scenico do “Renovação”. Constava do “Amanhã”, de Manoel Laranjeira, um acto social de grande effeito e que foi representado pelos amadores Angelina Soares, Antonio Leite e M. da Costa.

A interpretação agradou a platéa. Dizemol-o porque os applausos que se ouviram não foram, todos sabem, arrancados pela provocação escandalosa da “claque”, como nos espetaculos burguezes de grande effeito.

No acto variado tomaram parte: José Ignácio, do Grupo Arte e Natura, recitando com muita naturalidade o monologo dramatico “A Pobreza”; Pilar e Mathilde Soares, recitando respectivamente, “Os maltrapilhos” e “Rebellião”.

As jovens libertarias, que pertencem ao corpo scenico do “Renovação”, foram delirantemente aplaudidas.

O espetaculo terminou com a representação do “Primeiro de Maio”, poema dramatico de Pietro Gori, com um prologo e um acto.

O prologo foi dito por Domingos Braz, com muita alma, com muita emoção! Do conjunto só tivemos de dizer o que entendemos ser de mais justiça: agradou.

Houve senões, indiscutivelmente. Mas nós, que estavamos presentes, que notamos, tivemos a franqueza de os apontar a quem sabiamos poder corrigil-os.

Não se podia, de resto, exigir mais de amadores que começam.

Nos intervallos do espetaculo fez ouvir a orchestra do “Renovação”, executando escolhidas peças do seu repertório. Notamos em Affonso da Silva, o ensaiador da orchestra, mostras de grande contentamento: e, embora não lhe sendo perguntado o motivo dessa alegria crêmos que ella era, muito justamente, devida aos estrepitosos apllausos recebidos da numerosissima assistencia, por cada numero que os incansaveis rapazes da orchestra executam.

O domingo amanheceu sob chuva.

Era a ameaça dum pessimo dia.

A recepção, no Alto da Serra, que havia de ser feita aos excursionistas que partiram do Rio no trem das 6 horas da manhã, foi prejudicada.

As ruas estavam alagadas, devido á chuva que cahira durante a noite; tudo intimava a ficar em casa.

Os elementos do Renovação que haviam subido na vespera estavam dispersos: haviam se alojado aqui e ali, aos tres e aos quatro, em casa deste e daquelle companheiro petropolitano, que antes offereceram á respectiva commissão os aposentos de que dispunham.

Todos alojados nos suburbios, onde os meios de transporte escasseiam, não puderam reunir-se á hora. Entretanto, como quem adivinha as condições em que se encontravam os que estavam á espera, os excursionsitas chegam e se dirigem á séde da U.O. em Fabricas de Tecidos.

Não eram muitos. Ao todo uns noventa e tantos; uns setenta, portanto, os que chegaram ali na manhã de domingo.

Ás nove horas, porém, a sala de reuniões daquella associação estava pejada de familias operarias, do Rio e de Petropolis. Realizou-se então uma sessão solenne, que foi presidida pela commissão de recepção, trocando-se enthusiasticose acalorados cumprimentos e felicitações.

Falaram: Domingos Braz, pela referida commissão; José Soares, pelo Grupo de Estudos Sociaes de Petropolis; Vicente Llorca, pelo G.D. Arte e Natura; Rafael Garcia, pela U.O. Fabricas de Tecidos de Petropolis e Marques da Costa, Antonio Vaz, José Pires, Antonio Costa e Pedro Bastos, respectivamente pelas seguintes associações do Rio de Janeiro; Renovação (theatro e musica), Laborista Esperantista Grupo, U.O. em Construcção Civil, União Geral dos T. H. Restaurantes, Cafés e Simmilares e Alliança dos Operarios em Calçado. Falaram ainda representantes da U. Operarios em Tinturarias e da União Industrial dos O. Tanoeiros, cujos nomes não temos em mente.

A orchestra do Renovação fez-se ouvir na execução dos hymnos revolucionarios “A Internacional” e “Filhos do Povo”, no que foi enthusiasticamente acompanhada em côro pela assistencia.

A chuva continuava a cahir, teimosamente, impertinentemente…Tornara-se patente a impossibilidade de levar a cabo as visitas projectadas de entre as quaes se destacava a ida a Cascatinha.

As commissões, entretanto, já haviam assentado planos e propuzeram:

“A seguir a esta sessão, que deverá se já encerrada, almoçaremos. Depois nos reuniremos aqui mesmo, ás 12 1/2 horas, para saber se o respectivo “dono” nos permittirá passar a tarde no Palacio de Crystal”…

Foi unanimemente approvada a proposta.

Os trabalhadores locaes e mesmo alguns do Rio, sahiram para almoçar uns em suas proprias casas, outros em restaurantes das vizinhanças. Os restantes, mais de cem, desamarravam os seus “lunchs” e almoçaram ali, fazendo dos bancos mesas de refeitorio.

Uma commissão, composta de elementos do Rio e de Petropolis, tinha sahido a avistar-se com o prefeito, para conseguir de s. ex. as chaves do Palcaio de Crystal, onde pretendiam passar a tarde de domingo.

Mas o prefeito tinha ido fóra da cidade, almoçar, a convite de um amigo…

– Quem o substitue? – perguntou a commissão á pessoa que lhe dera aquella má noticia.

– O secretario. Mas hoje não. Também está para fóra…Porém se os senhores quizerem ter o trabalho de procurar o dr. Rutge…

– E porque não!?

– O dr. Rutge é muito boa pessoa!

É o delegado de policia. O que elle fizer está bem feito!

A commissão correu para o districto policial.

E foi feliz, pois o dr. Rutge parecia estar ali á sua espera.

Dr. Rutge! – cumprimentaram os commissionarios.

– Nós vinhamos pedir a v. s. o obsequio de mandar abrir o Palacio de Crystal, permittindo-nos passar ali a tarde de hoje.

Pretendemos levar a effeito, naquelle pavilhão, uma “pequena” festa, que, como vê, nos é inteiramente impossivel realizar ao ar livre!…

O dr. Rutge não oppôz difficuldades.

Constatando a auzencia do prefeitoe do seu substituto legal, o delegado de policia se communicou pelo telephone com alguem que a commissão não pôde saber, e disse a seguir:

– Esta bem.

Esta tudo arranjado. Podem dirigir-se ao Palacio.

As suas portas estão abertas para os receber.

Divirtam-se e sejam felizes.

Mau ou bom, o dr. Rutge mereceu, naquelle momento, os agradecimentos que a commissão lhe hypothecou.

De volta, a commissão já encontrou a sala de sessões da U.O. Fabricas de Tecidos novamente apinhada.

Eram 12 e 1/2 horas.

A assistencia esperava impacientemente os resultados das “demarches” dos seus delegados.

– Para o Palacio! – gritaram estes ao aparecerem no patamar superior da escada que leva áquella sala de reuniões.

– Para o Palacio! – exclamaram outros em seguida – Para o Palacio!

Dahi a meia hora todos os circunstantes se encontravam naquele proprio minicipal.

A orchestra, devidamente installada em bancos que pareciam ter sido pintados na vespera, iniciou uma esplendida “retreta”, que, com pequenos intervallos, durou até 4 horas da tarde.

Num desses intervallos teve logar a execussão rigorosa do programma a que antes nos referimos, e que estava assim organziado:

a) “La Espero” – pela orchestra e côro.

b) “Os maltrapilhos” – poesia revolucionaria, por Pilar Soares.

c) “Kvin minutov em Esperanto” – propaganda deste idioma internacional, por A. Vaz.

d) “Plutão” – por Conceição Garcia.

e) “A Lagrima”- por Domingos Braz.

f) “Santa Lucia”- conto, por Carolina Boni, acompanhada pela orchestra.

g) “O namoro a cavallo”- por Carlos Dias.

h) “El pan” – por Vicente Llorca.

i) “Una reunión clerical”, por Carlos Dias.

j) “Un terrible galego” – por A. Leite.

k) “Rebellião”- poema dramatico, de caracter profundamente anarchista, recitado com aplausos geraes pela jovem Mathilde Soares.

Em seguida os circumstantes se entregaram a varios entretenimentos, notando-se que em todas aquellas almas transbordava a grande, a immensa alegria que se sente quando vemos satisfeita ainda que só uma parte dos nossos ideaes.

Homens e mulheres, velhos, moços e creanças, vimol-os abraçados, de mãos dadas, ás carreiras, aos saltos, como que esquecidos das agruras de toda a sua vida de explorados, dansando, entregando-se a quantas diversões vinham á mente…Jogou-se a “cabra cega”, o “eixo”, os “quatro cantos”, a “peteca”, o “lenço cahido”, o “quero casar”, “noivos em marcha”, etc.

A tarde voou!

O aviso de que estava chegando a hora do regresso foi recebido com visivel disgosto.

A caminho da estação, os itinerantes entoavam “A Internacional”, “Os Filhos do Povo” e o “Canto dos Trabalhadores”, chamando assim a attenção das familias e do publico que encontravam nas ruas por onde passavam.

A despedida foi chocante.

Muitos abraços, muitos protestos de amisade, muitas affirmações de solidariedade inquebrantavel – e não faltaram promessas dum novo e breve encontro…

O silvo agudo da machina, que annunciava a partida immediata do trem, foi seguido de estrondosos vivas ao proletariado carioca e petropolitano, ao “Renovação” (theatro e musica), ao “Gremio Dramatico Arte e Natura”, á fraternidade obreira e á Revolução Social.

Os braços, levantados ao ar, agitavam freneticamente lenços e chapeus, numa ultima e reciproca manifestação de despedida…

No trem, passados os primeiros momentos da partida, durante os quaes todos os excursionistas relembravam com saudade os menores detalhes dos divertimentos daquelle dia de festa, todos preromperam numa nova extraordinaria, unisona e acalorada manifestação de alegria, entoando durante toda a viagem varias canções e hymnos revolucionarios.

Os excursionsitas conseguiram accomodar-se todos num carro, embora alguns de pé, o que contribuiu grandemente para imprimir mais animação ao seu regresso da gloriosa jornada de propaganda do mundo novo.

¾

Temos para publicar o resumo da esplendida conferencia que Carlos Dias realizou no Theatro Capitolio.

Esta noticia, porem, já vae longa, pelo que decidimos deixal-a para amanhã ou depois.

Os leitores não perdem por esperar.

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), de 3 de outubro de 1923.

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