A MILITÂNCIA DE IDEAL PERES

Felipe Corrêa

Ideal [Peres] foi, e sempre fez questão de ser, um militante anarquista.

Tinha saudável ojeriza a qualquer postura de liderança intelectual,

teórica, científica ou qualquer outra. Cobrava, daqueles que assumiam

tarefas e responsabilidades no movimento, uma atitude compromissada com a ética libertária.

Era severo com aqueles que se aproximavam do movimento para fazer “psicoterapia de grupo”,

para o “oba-oba”, para tirar proveito. Ideal nos deu o exemplo de compromisso militante,

atuando cotidianamente para o crescimento do anarquismo e o despertar de novas

consciências libertárias. […] Até sempre Ideal. Vai com todo nosso respeito,

toda a nossa estima, toda a nossa amizade. Aqui ficamos, com uma enorme saudade

e dispostos a levar sua luta adiante. Descansa, velho companheiro.

Círculo de Estudos Libertários (CEL)

Com o objetivo de resgatar e formalizar a história de militância do anarquista Ideal Peres, desenvolveremos, nas próximas linhas, um breve trabalho de investigação baseado em textos, documentos e entrevistas. Para isso, será necessário retornar à história de seu pai, Juan Perez Bouzas, à participação de Ideal no “movimento anarquista” nas décadas de 1940 e 1950, à posterior fundação do Centro de Estudos Professor José Oiticica (CEPJO) e a repressão que decaiu sobre ele. Será necessário, ainda, tratar dos cursos que Ideal e sua companheira Esther Redes realizaram em sua casa e a subseqüente construção do Círculo de Estudos Libertários (CEL), espaço em que atuou Ideal praticamente até o final de sua vida.

Relatando os fatos históricos e recorrendo ao material escrito por Ideal Peres, esperamos poder contribuir com a construção desta memória histórica.

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HERANÇA POLÍTICA: A MILITÂNCIA DE JUAN PEREZ

 

Juan Perez Bouzas (ou João Peres) era de origem espanhola e foi um sapateiro anarquista. Nascido em Ourense, na Galícia, em 8 de abril de 1899, emigrou para o Brasil em 1915, chegando ao Rio de Janeiro no mês de novembro, onde se interessou pelos temas libertários ao assistir a uma palestra de José Oiticica, e onde conheceu a luta de classes na convivência com outros operários.

Juan tornou-se anarquista no período das grandes greves e insurreições de 1917 a 1919, formando-se socialmente na Aliança dos Operários em Calçados e Classes Anexas, no Rio de Janeiro. Passou por Guaratinguetá e chegou a São Paulo em 1920, ano em que escondeu em sua casa, à Rua Piratininga, o também anarquista João Perdigão Gutierrez, então perseguido pela polícia.

O contato que Juan Perez teve com anarquistas e sindicalistas revolucionários, fez com que se tornasse um destacado militante sindical nas décadas de 1920 e 1930, como membro da Federação Operária de São Paulo (FOSP).

Em 1º de agosto daquele ano, foi o primeiro a assinar Circular aos Trabalhadores e Libertários de São Paulo – publicada na revista anarquista A Obra, dirigida por Florentino de Carvalho – contra a infiltração de elementos políticos nos meios operários e sindicais de São Paulo.

Em 15 de julho de 1924 encabeçou um manifesto dirigido ao Comando Militar de tropas rebeldes que ocupavam São Paulo, no qual os anarquistas pediam armas para lutar ao lado da Revolução, o que foi negado pelos militares. Com isso, abateu-se a repressão sobre os que assinaram o documento após a retomada da capital paulista pelo governo de Arthur Bernardes.

Junto com outros companheiros, Juan Perez, em sua atuação sindical, promoveu diversas greves gerais e setoriais, que acabaram custando-lhe algumas prisões e ameaças de deportação. Poderia ser classificado como um militante muito ativo e enérgico; mais um grande agitador do que teórico. Com freqüência foi vítima da repressão, sendo preso diversas vezes, e sofrendo com a tortura nas cadeias.

Além do destaque que teve na luta sindical dos anos 1930, Juan Peres também se envolveu completamente na luta contra o fascismo. Participou da “Batalha da Sé” de 1934, quando a frente antifascista de que fazia parte conseguiu impedir uma passeata dos integralistas. Ao verem que tudo apontava para um massacre dos trabalhadores que haviam sido convocados pela FOSP, e que se encontravam em torno da praça onde se realizava a manifestação fascista, os anarquistas surpreenderam os guardas, tomando um ninho de metralhadora na torre da Catedral da Sé, que na época estava em construção, e atacaram os integralistas com rajadas de balas, acabando com o encontro dos discípulos de Plínio Salgado, conforme relata Alexandre Samis:

“A ‘Batalha da Praça da Sé’ aconteceu em outubro de 1934, e talvez tenha sido a última grande aparição anarquista de expressão, antes do Estado Novo em 1937. Nela, figuras como Juan Perez Bouzas […] deixaram suas marcas. Perez [partiu] para a ação direta retirando das mãos da Força Pública paulista uma metralhadora que, em seguida, foi usada contra os integralistas. […] Com a debandada geral dos integralistas, inclusive com o abandono de suas camisas verdes pelas sarjetas do centro de São Paulo, a ação antifascista tinha atingido seus objetivos. E os anarquistas […] ‘na luta se cobriram de glória’.”[1]

Juan Perez foi um dos que tomou a metralhadora, neutralizou os guardas e atirou sobre a multidão fascista, gerando a correria e a entrada pelas ruas laterais. Por isso, foi perseguido pela polícia e pelos integralistas, tendo que fugir para o sul. Fixou-se por um tempo no sul do país (Paraná e Rio Grande do Sul) e mandou sua família para o Rio de Janeiro, aos cuidados de seu amigo José Oiticica. Algum tempo depois, juntou-se à sua família e fixou residência no Rio de Janeiro.
Posteriormente, Juan Perez participou da Aliança Nacional Libertadora (ANL) que, além da luta antifascista, propunha-se a combater o imperialismo e o latifúndio.[2] No entanto, a participação de Juan, assim como a de todos os anarquistas, deu-se de maneira crítica, pois percebiam o papel aparelhista que o Partido Comunista exercia na organização.

Passada a ditadura, Juan Perez participou da fundação do periódico Ação Direta, no ano de 1946, junto com José Oiticica, José Romero, Manuel Peres, Amílcar dos Santos, entre outros. Juan morreu no Rio de Janeiro, em 5 de setembro de 1958, vítima de problemas pulmonares causados pelo trabalho de sapateiro altamente desgastante, pelas inúmeras noites frias passadas nas prisões de São Paulo onde, muitas vezes, foi acordado no meio da noite com um balde de água gelada; sofreu também pelos efeitos do tabagismo. Deixou um filho que prosseguiu sua luta; Ideal Peres seguiu os passos do pai buscando honrar o nome que este lhe dera, e que representava a luta por um novo porvir.

IDEAL PERES: PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO
ANARQUISTA DAS DÉCADAS DE 1940 E 1950

 

Fruto do relacionamento entre Juan Perez e Carolina Bassi, uma operária do ramo têxtil, nasceu Ideal Peres, na capital paulista, em 25 de setembro de 1925. Ideal estudou no colégio Pedro II, onde José Oiticica, que lá dava aulas, conseguiu-lhe a matrícula. Naturalmente, Ideal sentiu as influências libertárias de seu professor anarquista, com quem aprendeu muito sobre a doutrina da liberdade, acabando Oiticica por tornar-se sua a maior influência no meio estudantil.

Ideal Peres iniciou sua militância em 1946, após a queda do Estado Novo, tomando parte na movimentação anarquista de então, sendo fundador e membro muito ativo da Juventude Anarquista do Rio de Janeiro[3]. A fundação do periódico Ação Direta, que citamos anteriormente e que teve participação de Juan Perez, também contou com Ideal Peres, que logo seria um importante membro do jornal, tornando-se seu administrador a partir de 1958.

“[…] Ação Direta não se preocupava só com o que acontecia lá fora! Seus redatores, todos anarquistas de longa experiência, dirigiram uma vibrante mensagem aos trabalhadores do Brasil, subjugados pelos sindicatos e estes pelo Ministério do Trabalho. Conclama o operariado a formar sindicatos independentes, livres, ao lado dos sindicatos ‘mortos’ dirigidos pelo Ministério do Trabalho, e a opor-se à política trabalhista. Convoca a juventude para estudar suas doutrinas e formar grupos libertários. Mostra os sofismas políticos aos operários, endossando palavras de Vanguarda Socialista, lembrando a incoerência dos trabalhadores nas eleições ao ‘sufragar Dutra e Fiúza’ – os candidatos das ditaduras fascista e bolchevista – em prejuízo de menos ruim (E. Gomes) ou que pelo menos prometera libertar os sindicatos da tutela do Estado.”[4]

Ideal participou da confecção do periódico O Archote, órgão do grupo anarquista de mesmo nome, publicado em Niterói a partir de 1947[5], e que era feito por Raúl Vidal (pseudônimo de Atayde da Silva Dias). Ideal Peres, nesta época em Niterói, teve seu trabalho neste jornal recordado por Vidal no artigo “Reflexões de um Anarquista”, publicado em Ação Direta. Lá, ele contava que escolhera o título do jornal com a ajuda de Ideal,que também foi responsável pelo desenho do logotipo:

“Pensei, então, em fazer uma publicação mimeografada, utilizando-me do mimeógrafo da Repartição Pública em que trabalhava. A princípio, hesitei. Por fim, pus os escrúpulos e as preocupações de lado, concluindo que se o Estado me explorava, por que não o explorar também. Afinal, não iria inutilizar a máquina. Decidi-me. O título foi de difícil escolha. Anotei uma série deles e, após demorados confrontos, optei por O Archote, pela sua significação simbólica: um braço sustentando um facho de fogo. Dei buscas até encontrar um modelo. Tentei fazer um desenho, debalde convencendo-me de que haviam tido razões os professores que me reprovaram nesta matéria, e mais, aqueles que me conferiram a nota mínima para aprovação, haviam sido benevolentes. Expus minhas dificuldades ao companheiro Ideal Peres, e lhe pedi para desenhar o archote e o título. De posse do material, solicitei permissão ao diretor da repartição para trabalhar até mais tarde, visto ser sábado e o expediente encerrar ao meio-dia. E O Archote apareceu.”[6]

Em 1948, Ideal Peres passou a atuar na União dos Anarquistas do Rio de Janeiro, assumindo a secretaria da Comissão de Relações Anarquistas, com o objetivo de estabelecer relações com anarquistas brasileiros e do exterior. No mesmo ano, ele foi indicado como delegado da Juventude Anarquista para o Congresso Anarquista que se realizou no sítio do movimento anarquista, no Itaim, região metropolitana de São Paulo, de 17 a 19 de dezembro. Neste Congresso, estavam representadas oito entidades: União Anarquista do Rio de Janeiro, União Anarquista de São Paulo, Juventude Anarquista do Rio de Janeiro, Editorial Germinal do Rio de Janeiro, Grupo Anarquista Esperantista do Rio de Janeiro, Grupo Archote de Niterói, Agrupação Imprensa e Propaganda de São Paulo e A Plebe de São Paulo.[7]

Os registros sobre o informe da Juventude Anarquista mostram que Ideal Peres fez o relato de que a Juventude reunia-se com freqüência e tinha 20 membros; queixou-se da falta de um local fixo para o grupo e defendeu a colagem de cartazes para propaganda. Além disso, Ideal informou que o grupo enviava jornais para outros grupos e organizava piqueniques.[8]

A Juventude Anarquista foi fundada em 27 de junho de 1946 e, com sede no Rio de Janeiro, possuía como principal objetivo agregar jovens de ambos os sexos, que tivessem interesse no estudo das questões sociais. Era um grupo não-hierárquico, que se colocava à margem da política partidária, e que buscava ampliar o conhecimento e os debates sobre os problemas sociais que afligem a humanidade. Além disso, a Juventude defendia a educação; era contra preconceitos e distinções sociais, fossem eles de classe, de raça, de cor ou de nacionalidade; posicionava-se contra a religião; pregava a igualdade e a fraternidade. Para atingir estes objetivos, ela utilizava os seguintes meios: promoção de reuniões semanais, realização de conferências, festas e confraternizações, diligência de piqueniques e excursões, distribuição e venda de material de propaganda anarquista e intercâmbio com organizações libertárias de todo mundo.[9]

Ainda em 1948, Ideal Peres colaborou com ilustrações para a primeira publicação da editora Germinal, de Roberto das Neves: uma reedição do livro anticlerical Sermões da Montanha, do português Tomás da Fonseca.

Em 1949, Ideal conheceu Esther de Oliveira Redes, que viria a ser sua companheira por toda a vida, em um piquenique em Niterói.

Neste ano, ele continuou suas atividades na Juventude Anarquista, participando de reuniões, plenárias, encontros, distribuição do jornal Ação Direta, formação de biblioteca, doação de livros, contribuições para a União Anarquista, piqueniques de confraternização, palestras e distribuição de material de propaganda. Além disso, publicou um boletim chamado A Revolta.[10]

Em 1953, Ideal e Juan Perez estiveram presentes no Congresso Anarquista que se realizou no Rio de Janeiro, na casa de José Oiticica localizada no bairro da Urca. Ambos intervieram com signficativa freqüência nos debates, podendo destacar-se suas contribuições sobre a imprensa anarquista: Juan enfatizando a necessidade de rodízio no grupo que editava o jornal, para que todos pudessem aprender e colaborar; Ideal apresentando formalmente a proposta para que o jornal Ação Direta recebesse mais colaborações de outros grupos e indivíduos do Brasil, comprometendo-se a realizar discussões para a promoção do anarquismo, além de doações de material libertário para bibliotecas públicas, defendendo a idéia de “penetrar” na imprensa burguesa com colaborações libertárias e promover as idéias libertárias nos respectivos ambientes de trabalho. No fim da discussão, que terminaria somente no dia seguinte, foi aprovada a idéia de continuidade de Ação Direta, com a colaboração de todos os anarquistas do Brasil.[11]

No ano seguinte, Ideal concluiu sua faculdade de medicina, especializando-se em reumatologia. “Na universidade [consegiu] tirar um jornal – O Plantão – e fazer algumas coisas, embora o grêmio estivesse proibido e ‘a UNE [fosse] um antro da direita e depois da dita esquerda nacionalista…’ como disse Ideal”.[12]

CEPJO: FUNCIONAMENTO E REPRESSÃO DA DITADURA

Um pouco depois da morte de José Oiticica, que ocorreu em 30 de junho de 1957, surgiu a idéia de se constituir o Centro de Estudos Professor José Oiticica (CEPJO). O motivo da homenagem a José Oiticica era por razão do imenso trabalho de promoção das idéias libertárias, ao qual havia se dedicado durante toda a vida.[13] Concluiu-se pelo nome de Oiticica, apesar de alguns defenderem a idéia de se colocar o nome de Fábio Luz neste espaço libertário.

Ideal Peres foi convidado a entrar no grupo por três outros anarquistas: Edgar Rodrigues, Enio Cardoso e Seraphim Porto, que, vendo-se um grupo muito limitado, estenderam o convite a outras sete pessoas, dentre as quais figurava Ideal.[14]

O CEPJO foi fundado no Rio de Janeiro em 7 de março de 1958.[15] O grupo que se reuniu para sua formação pediu à família de Oiticica a passagem do contrato de locação da sala onde ele dava aulas particulares, na avenida Almirante Barroso.[16] Roberto das Neves encarregou-se de fazer o pedido à família, que lhe concedeu o espaço, sem maiores problemas.

Nos estatutos do CEPJO constam seus princípios, que eram fundamentalmente: “despertar e estimular o sentimento de elevação da personalidade, e elevando-a à prática da verdadeira solidariedade humana, para a paz e bem-estar universais”. Além disso, dentre os princípios do CEPJO, consta que ele dispunha-se a desenvolver “sua ação por meio de cursos, palestras, conferências, debates, congressos, exposições, excursões, publicações, e outras iniciativas”.[17] Mantinha três categorias de sócios: militantes, cooperantes e correspondentes. Foram 13 os sócios que assinaram a ata de sócios fundadores, dentre eles Ideal Peres e Esther Redes. Ainda nos inícios de suas atividades, com quatro meses de funcionamento, os anarquistas em torno do CEPJO vivenciaram a morte de Juan Perez que, com apenas 59 anos, trouxe significativa perda ao movimento libertário da época.

O CEPJO apoiou e colaborou diretamente para o desenvolvimento de atividades culturais libertárias e de protesto. Dentre elas, podemos citar: o Movimento Estudantil Libertário (MEL), o Grupo de Teatro Social (Grutepa), o Movimento Pacifista Brasileiro, o Centro Internacional de Pesquisas sobre Anarquismo do Brasil (CIRA-Brasil), o Cine-Clube, o Centro Brasileiro de Estudos Internacionais, seminários, cursos, palestras, passeios, excursões, filmagens e intercâmbio de imprensa. Participou também de protestos, manifestações e comícios públicos:

“Protestos – em colaboração com os estudantes do Rio-São Paulo – contra a expulsão do estudante espanhol José Comin Pardillos […] preso pela polícia marítima do Rio de Janeiro, quando viajava clandestinamente para o Brasil, na tentativa de escapar do ‘Garrote Vil’ de Franco. O advogado e membro do CEPJO Atayde da Silva Dias intercedeu junto às autoridades impetrando habeas-corpus em favor do anarquista espanhol. […] Manifestações e comícios públicos realizados em colaboração com a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a ‘União General Humberto Delgado’, em favor do asilo e do ‘salvo-conduto’ para que portugueses refugiados nas Embaixadas do Brasil, Cuba, Argentina e outras, em Lisboa, pudessem alcançar o exterior e ficar a salvo da PIDE de Salazar.”[18]

Normalmente, o CEPJO abria duas vezes por semana, sendo uma para o tratamento das questões administrativas e ideológicas e outra para as atividades públicas: conferências, palestras, cursos, leituras comentadas etc. Buscando a realização dos objetivos acima expostos, o CEPJO realizou uma série de atividades. A título de exemplo citamos: “A Educação nas Democracias e seus Problemas”, pelo professor Coriolano; “Anarquismo e Lutas Sociais”, por Manuel Peres Fernandes; “O Socialismo em Israel”, por Augustin Souchy; “Nacionalismo, Internacionalismo e Anacionalismo”, por Roberto das Neves. Até 1960 foram realizadas, também, conferências sobre vegetarianismo, história, arte, literatura, entre outros temas.

O período de 1960 a 1964 no CEPJO foi um período de complicações, principalmente financeiras. Com o aumento do aluguel de sua sede, seus membros foram obrigados a recorrer a uma série de atividades para obtenção de recursos próprios: exibição de filmes cedidos pelas embaixadas francesa e americana, venda de material próprio, livros, apostilas, sublocação do espaço para aulas e para outros grupos; no entanto, apesar das dificuldades, decidiu-se pela continuidade das atividades e foi assim que o CEPJO passou a permitir os cursos pagos.

Neste contexto, três de seus sócios fundadores deixaram o quadro de sócios fundadores: Roberto das Neves, Raul Vidal e Seraphim Porto. Sem estes três membros, o Centro deu início a uma série de cursos no campo da psicologia, ministrados pelo dr. Newton F. Josetti, que tiveram início em 1960, e foram até 1965; dentre os freqüentadores destes cursos estavam alguns dos futuros membros do CEPJO. Algum tempo depois, dois outros sócios fundadores saíram por motivos particulares, Enio Cardoso e Afonso Vieira.[19]

O CEPJO também desenvolveu encontros, como o ocorrido com o Centro de Cultura Social de São Paulo (CCS-SP), vendeu jornais e apostilas e, além disso, promoveu viagens e recebeu militantes de diversas regiões do Brasil e do mundo: São Paulo, Chile, Paraguai, Alemanha, Suécia. Ideal Peres fez parte da Comissão de Administração e atuou como encarregado da correspondência com o exterior no período de 1961 e 1962.[20]

Em março de 1962 foi fundada, como “obra do CEPJO” a Editora Mundo Livre, que tinha por objetivo passar adiante a cultura libertária. Ela publicou O Retrato da Ditadura Portuguesa, de Edgar Rodrigues; A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos, de José Oiticica (que contém um prefácio de Ideal Peres); A Ciência Moderna e o Humanismo, de Pedro Kropotkin; Anarquismo: roteiro de libertação social, de Edgar Leuenroth e Erros e Contradições do Marxismo, de Varlan Tcherkesoff.

Entre as palestras e debates que foram desenvolvidos no período que vai de 1964 a 1969 podemos citar: “Tipologia de Sheldom e Processo de Individuação de Jung”, por Esther Redes; “Mito Marxista e Marxismo Moderno”, pelo professor Mário; “Introdução à obra de Camus”, por Esther Redes; “Infiltração Imperialista”, por Hermano Alves; “Surrealismo”, por Pietro Ferrua.[21]

Ideal Peres realizou palestras no CEPJO, desde o período pré-1960 até seu fechamento. Podemos citar algumas: “O Socialismo na Antiguidade”; “Comentário ao Livro O Medo da Liberdade, do psicólogo Eric Fromm”; “Comentário sobre um artigo da revista Manchete, intitulado ‘O que é a Bandeira Negra do Anarquismo’”; “Psicologia e Anarquismo, comentário de um artigo em francês”; “Problemas Econômicos Brasileiros”; “Comentários ao livro Eros e Civilização (6 palestras)”; “Fronn e a Revolução Social”;[22] “Conferência: A Psicologia a Serviço do Totalitarismo”; “Curso: o que pode fazer a psicanálise por você?”; participação no curso “Aspectos Históricos do Anarquismo”, curso de 8 aulas realizadas por Pietro Ferrua.[23]

Algumas características de Ideal Peres podem ser retiradas de um artigo-depoimento de Itamar Guerreiro, que conheceu Ideal no CEPJO. Neste seu depoimento, Itamar destaca as qualidades do médico e anarquista.

“Resolvemos, então, visitar o grupo de estudos, e conhecemos o Centro de Estudos José Oiticica (CEJO), irradiador em potencial da doutrina anarquista. Ocasião em que fomos apresentados a seu coordenador, o médico Ideal Peres. Intelectual, líder-nato, Ideal era um voraz ledor, e igualmente sua companheira, incansável defensora da mesma causa, a professora Ester Redes, doce e inteligente na difusão do anarquismo. […] O médico e companheiro Ideal Peres era incansável na disseminação do ideário anarquista. Mantinha ligação com libertários de todas as partes do mundo, se correspondendo com pessoas até nos países comunistas. Conseguia filmes de cunho político para exibição entre nós, e emitia o respectivo e abalizado comentário. Poucas vezes discordávamos, porém sucumbíamos diante da sólida argumentação. Tolerante e paciente, orientava e coordenava os estudos do CEJO, atualizando e socializando sempre as informações que lhe chegavam às mãos. Possuidor de ampla biblioteca, com títulos diversos, difundia a doutrina anarquista, sempre fiel aos postulados pregados pelo professor José Oiticica. As palestras proferidas por Ideal, concorridíssimas, eram verdadeiras aulas de socialismo, defesa integral das liberdades do ser humano, plenas de noções de fraternidade. O pensamento anarquista começando a deixar de lado a teoria. Dessa maneira, emergiam ensinamentos de como atuar no dia-a-dia, pugnando pelo ideais libertários, pois ‘o anarquismo é acima de tudo’ – como pregava Oiticica e o próprio Ideal multiplicava –, ‘ação direta’ e defesa de uma vida plena e com todas as dignidades.”[24]

Em 1964, com o golpe dos militares, Ideal Peres e outros membros do CEPJO tiveram dificuldades por razão da locação de parte do Centro que havia sido locado ao grupo marxista Política Operária (POLOP). Os militantes do POLOP haviam acumulado grande quantidade de material “subversivo” dentro do CEPJO e logo no anunciar do golpe Ideal Peres e Edgar Rodrigues correram ao local para jogar fora o material que poderia lhes incriminar. Houve uma longa jornada para rasgar e jogar parte do material, aos poucos, no lixo do prédio, mas isso não foi o suficiente. Por razão da grande quantidade de material, eles, juntamente com Germinal Bottino, tiveram de colocar tudo em sacos de cimento vazios, transportando-os em uma caminhonete. Depois de passar por uma barreira dos militares que faziam blitz nos carros, conseguiram dispensar o material em Niterói.[25]

Em 1964 e 1965 Ideal presidiu a Comissão de Administração do CEPJO.[26]

Em 1967, quando se completaram dez anos da morte de Oiticica, Ideal foi escolhido pelo movimento para representá-lo como orador, em homenagem ao seu antigo professor. Nesta homenagem, em que sua fala estava limitada a dez minutos[27], ele descreveu o início do século XX no Rio de Janeiro, seu contexto literário e, a partir daí, traçou uma rápida história da militância de José Oiticica. A partir do conteúdo deste artigo, pode-se entender a concepção de Ideal Peres sobre as pregações dos anarquistas.

“E o que pregaram os libertários ou anarquistas assim como José Oiticica?

a) Que o Homem é um ser de lei ética – E a psicologia moderna, com Erich Fromm à frente, está elaborando essa ética centrada no homem e não fora dele;

b) Que o Homem tem necessidade do transcendente e este transcendente tanto pode ser uma idéia, como uma filosofia social, ou uma religião humanista;

c) Que o Homem é um ser imaturo – que busca sua maturidade através do autoconhecimento e do conhecimento das leis sociais. Pois temos que concomitantemente modificar-nos e modificar a sociedade. É isto que afirma Overstreet em estudo moderno;

d) Que o Estado é sempre opressor e alienante – A essa mesma conclusão chega Carl G. Jung, após intensos estudos de sua psicologia;

e) Propugnaram e realizaram a formação de comunidades – Onde fosse abolido o dinheiro, a autoridade neurótica, onde o trabalho seria livre e não compulsivo. Isto já é realidade nos Kibutzin de Israel, que fornecem 2/3 da alimentação para o povo de Israel, o que Oscar Niemeyer, renomado arquiteto brasileiro, em entrevista no último número de Realidade, afirma serem os embriões de futuras cidades;

f) Lutaram intensamente pelo estabelecimento das 8 horas de trabalho – Luta na qual pereceram os Mártires de Chicago, e isto vai se tornando realidade em todo o mundo;

g) Pregaram a pedagogia livre – O respeito pela criança em formação, a total liberdade de expressão. E isto é confirmado por A.S. Neil com sua escola de Summerhill;

h) Analisaram substancialmente a personalidade autoritária, neurótica, de nossos tempos – E isto agora é confirmado por trabalho de vulto dos pesquisadores americanos Frank Bronswick, Nevit Sanford, que em livro de mais de mil páginas de pesquisas, confirmam a feição negativa da sociedade autoritária;

i) Lutaram pela humanização das prisões, reformatórios e abolição dos internatos – Anteciparam-se a Wilhelm Reich no problema da libertação sexual, pregaram a igualdade entre os sexos, o respeito à criança. A Cooperação. O Federalismo. A Descentralização.

Em economia moderna a autogestão operária e a Co-gestão.

As idéias libertárias que vieram desde Lao-Tsé (três séculos antes de nossa era), por Zenon e os estóicos, pelos Essênios, por Rabelais. Por William Godwin, o poeta Shelley, Stirner, Proudhon, Bakunin, príncipe Kropotkin, Landauer, o maior geógrafo da França, Reclus, fazem parte no momento atual do pensamento básico de um Erich Fromm, cujo livro Psicanálise da Sociedade Contemporânea, é anarquismo puro, de um Lewis Munford, sociólogo com os livros Cultura das Cidades e Origem das Cidades. Com o crítico de arte mais famoso do mundo, Herbert Read, com os planejadores sociais Paul e Percival Goodman, com o dr. Alex Confort, escritores Colin Ward, Iaroslav

Hasek, Bruno Traven, George Woodcock etc. Cineastas como Jean Vigo e Buñuel. Pintores como Vlamik, Courbet. Nada apresentam de absurdas dentro da lógica e da experimentação. Apenas um nome assusta. E se fizermos como o personagem de Kafka,esperando que a porta seja aberta, quando sempre ela o esteve, perderemos uma oportunidade de alargar nossos horizontes.”[28]

Finalizou o pequeno artigo com as seguintes palavras: “neste deserto de homens e idéias que é o Brasil, Oiticica foi um homem. Foi um pensamento atuante e sobretudo um caráter vertebrado”.[29]

Por diversas vezes, depois do golpe de 1964, elementos desconhecidos passaram a freqüentar as reuniões do CEPJO, sempre realizando perguntas estranhas que pudessem comprometer o Centro. Sem conseguir provas suficientes, os supostos infiltrados iam embora sem muito conseguir. No entanto, conforme transcorreram os “anos de chumbo”, as coisas foram piorando.

Durante o período da ditadura militar, os contatos entre anarquistas haviam cessado. “Foram muitos os encontros anarquistas no Nosso Sítio, na região metropolitana de São Paulo, e ininterruptos contatos entre libertários dispersos pelo país.”[30]

As detenções dos anarquistas só começaram em outubro de 1969, época em que Ideal Peres era o primeiro secretário do Centro.[31] No dia 1, três jovens que freqüentavam o CEPJO foram presos e, submetidos a maus tratos, forneceram o nome de outros freqüentadores. No dia 8 foram presos: Antonio da Costa e seus três filhos, Eliza, Roberto e Antônio, membros do MEL, tendo o último sendo vítima de choques elétricos; Carlos Alberto da Silva, que estudava medicina, que foi torturado com choques e espancamento; Mário Rogério Pinto e Maria Arminda Silva, também do MEL; Rui Silva, que, com 17 anos, foi espancado e obrigado a assinar um depoimento ameaçado por armas.

No dia 11, militares da aeronáutica arrombaram e invadiram a sede do CEPJO apreendendo publicações e materiais que lá estavam, destruindo tudo o que puderam encontrar. Apropriaram-se de ventilador, máquina de escrever, fichário, mimeógrafo e outras “provas” de um crime que ninguém havia cometido. Quebraram tudo o que encontraram pela frente: cadeiras, estantes, quadros etc.[32] Jaime Cubero, contemporâneo de Ideal Peres e anarquista do Centro de Cultura Social de São Paulo comenta este assalto ao CEPJO:

“Numa bela tarde, o Ideal Peres, que era da comissão do Centro, estava trabalhando no hospital central do exército, como médico […] e avisaram-no que tinham invadido o Centro de Estudos. A companheira dele, Esther de Oliveira Redes, estava dando um curso de matemática lá. Ela e os alunos desceram pela escada e a polícia subiu pelo elevador. Aí fizeram uma revista lá, levaram algumas coisas, os livros… Porque neste período, na caça aos ‘aparelhos’, muitos policiais e militares, quando invadiam as casas, levavam tudo o que podiam. Foram apreendidos muitos livros, livros raros. Depois eles vendiam.”[33]

Um dia antes, os militares também haviam invadido a casa de Ideal Peres e Esther Redes, levando muito material libertário, considerado subversivo, mas também os saqueando, pois se apropriaram de dinheiro, jóias, perfumes, tapetes, quadros, roupas e bebidas alcoólicas. Relata ainda Cubero que “Ideal, quando foi preso, tinha vários jornais estrangeiros, Tierra y Libertad, mas ele conseguiu picar e jogar na bacia do banheiro e puxar a descarga para não ser pego com aquilo. Ele era tido como um dos mentores intelectuais do movimento”[34]. No entanto, muito material foi apreendido na casa de Ideal.[35]

Ideal foi preso e passou quase um mês incomunicável, sem possibilidades de tomar banho ou fazer a barba, no DOI-CODI da avenida Barão de Mesquita. Não foi vítima de tortura, mas escutou por diversas vezes outros militantes serem torturados. Segundo confirmaria depois: “não precisa muita coisa para enlouquecer um homem, basta deixá-lo 25 dias sem banho, sem notícias de seus companheiros e escutando os gritos de gente sendo torturada embaixo de você”[36]. No dia 15, os militares também invadiram a casa de Pietro Ferrua e a editora Germinal, onde apreenderam material de conteúdo político, mas também tudo o que encontraram de valor. O mesmo aconteceu com outras casas de militantes.

A Aeronáutica terminou por instaurar um Inquérito Policial Militar contra 16 militantes que foram acusados de realizar atividades subversivas no MEL e no CEPJO. No inquérito, o CEPJO era relacionado ao MEL, que era tido como uma entidade subversiva, colaborando, como ressaltaram os militares, “sobremaneira com a agitação da época fazendo distribuição de panfletos, dentre os quais citamos ‘Olho por olho, dente por dente’ redigido e impresso no próprio Centro”[37]. Na realidade, a participação do MEL estendeu-se mais do que apenas este texto. Edgar Rodrigues, também membro do CEPJO, ao descrever as atividades do MEL, confirma que estes tiveram apoio de Ideal Peres, inclusive para a impressão de seus panfletos, realizada no CEPJO, com seu mimeógrafo, sem o conhecimento de Edgar e os outros membros.

“Os estudantes andavam inquietos com a repressão policial-militar. A morte de Edson Luis, no restaurante do Calabouço, durante uma invasão policial, gerou manifestações, passeatas estudantis e o MEL, usando um velho mimeógrafo do CEPJO, imprimiu e distribuiu panfletos jogando alguns dos terraços de edifícios do Rio.”[38]

Além de “Olho por olho, dente por dente”, o MEL publicou “O Acordo Mec-Usaid”, “Se você for honesto leia”, “Cidadão, o seu voto ajuda ou prejudica a comunidade?”, “Fora com essa corja de vadios” e “O vergonhoso problema do ensino” que, depois de criticar a lógica dos cursos pré-vestibular, a falta de estímulo ao professor universitário, a militarização e a alienação do ensino, a falta de condições de estudo para o universitário e, finalmente, o orçamento dedicado ao ensino no Brasil, colocou claramente suas posições:

“Do breve estudo, das apreciações supracitadas, imediatamente se nos desdobram algumas conclusões, que se aprofundadas em suas aplicações práticas nos levariam indiscutivelmente a uma única resposta válida para este impasse: REVOLUÇÃO! SIM, REVOLUÇÃO NO ENSINO.

Para tanto, seria necessário:

1º – Tomada de consciência pelos estudantes, professores, intelectuais e o povo em geral, dos reais e graves problemas do ensino.

2º – Luta efetiva visando uma reformulação total do ensino secundário.

3º – Luta para um maior investimento de verbas no ensino, já que a educação é básica para o desenvolvimento.

4º – Melhora imediata dos níveis salariais do professor secundário.

5º – Luta pela criação de novas faculdades e aumento do número de vagas nas escolas.

6º – Luta para humanização dos vestibulares.

7º – Campanha para a reforma da universidade, que deverá ser gratuita e aberta aos mais capazes, independente da classe social a que pertençam.

8º – Luta pela extinção da cátedra vitalícia.

9º – Combate aos acordos MEC-USAID.

10º – Luta contra a militarização do ensino.

É mais do que necessário que haja um movimento uníssono de todos os estudantes em torno de reivindicações válidas.

Lutemos por nossos direitos!

Não nos acovardemos!

Criemos a consciência de que sem unidade e luta jamais atingiremos nossos objetivos!”[39]

Os anarquistas do CEPJO foram acusados de ter ligação com o Centro Internacional de Pesquisa sobre o Anarquismo (CIRA), por meio de Pietro Ferrua; de realizar propaganda de proveniência estrangeira para infiltração de idéias incompatíveis com a Constituição do país; de propagar a manutenção de atividades perigosas à segurança nacional; de divulgar panfletos e notícias “tendenciosas” que colocavam em risco o bom nome, a autoridade e o crédito do Brasil, além de ofender a moral e incitar à desobediência das leis.[40]

Ideal Peres foi acusado de aliciar estudantes e trabalhadores para a causa libertária; contribuir diretamente na redação de “Olho por olho, dente por dente”; possuir uma vasta biblioteca sobre anarquismo, permutar publicações com o exterior e ser um dos mais ativos membros do CEPJO. Dentre outras acusações ao MEL, pesava uma sobre o cunho subversivo de seus textos e panfletos, especialmente “O vergonhoso problema do ensino”. O Inquérito Policial-Militar estabelecido ainda em 1969 afirmou sobre Ideal Peres:

“Doutor Ideal Peres, com quarenta e um anos de idade, filho de João Peres e de Carolina Bassi, casado, natural da cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, médico e trabalha no Hospital Central do Exército, décima quinta enfermaria, e reside à rua Anchieta nº 26, apartamento 201, Leme, nesta cidade do Rio de Janeiro (médico também do INPS). Primeiro secretário do CEPJO, anarquista confesso, foi elemento de maior atividade no ‘Centro’. Por correspondência e utilizando o pseudônimo de Sergio Leitão e Antonio Gomes para os primeiros contatos com elementos simpatizantes fora do Estado da Guanabara (conforme pode ser constatado pela sua correspondência pessoal […], conseguiu com a ajuda de estudantes de outros Estados aliciar elementos tanto na área estudantil como fora, para as fileiras do anarquismo. Contribuiu diretamente na redação de panfletos subversivos como ‘Olho por olho, dente por dente’ cujo original se encontra arquivado em sua correspondência. Detentor de uma vasta biblioteca sobre anarquismo. […] Constata-se sua ligação com movimentos anarquistas de outros países.[41]

Os resultados da Primeira Auditoria da Aeronáutica complementaram:

“Conseguiu, em convivência com anarquistas de outros Estados da Federação, aliciar elementos na área estudantil e profissional para as fileiras do movimento subversivo anarquista, que no Brasil se escondia sob denominação de ‘CEPJO’. […] Possuía uma das mais completas bibliotecas, rica em material subversivo anarquista […] com a qual doutrinava os jovens que ingressavam nas fileiras do MEL. Foi um dos redatores do manifesto subversivo […] distribuído por toda a cidade do Rio de Janeiro, por volta dos meses de fevereiro e março de 1968. […] Era um dos maiores importadores de material de propaganda subversiva anárquica, que utilizava na indigna e criminosa tarefa de aliciar e introduzir a juventude brasileira nas veredas obscuras, tenebrosas e aviltantes do crime e nos caminhos tortuosos e sem saída da subversão.”[42]

Os processos duraram até 1972, quando todos os acusados foram absolvidos por falta de provas. Manobras realizadas por advogados que foram pagos com dinheiro arrecadado pelos anarquistas e contatos com pessoas influentes contribuíram para esta absolvição. Contou o fato de o CEPJO ser uma entidade legalizada e devidamente registrada. Os objetos apreendidos nunca mais foram devolvidos.

Ideal Peres terminou por perder seu emprego de médico no Hospital do Exército, passando, depois da prisão, por uma fase muito difícil, tanto em termos materiais quanto psicológicos, e enfrentando, além disso, um inquérito administrativo em seu outro local de trabalho, o então INPS, do qual também conseguiu escapar ileso.

ANARQUISMO NA DITADURA, IMPRENSA ANARQUISTA

E AS PRIMEIRAS TENTATIVAS DE “INSERÇÃO SOCIAL”

Ideal Peres fez parte, desde a primeira metade da década de 1970, de um trabalho de preservação da memória anarquista, no Grupo Alfa de Estudos Históricos, ou simplesmente “grupo Projeção”, fundado em São Paulo em 1973, contando com companheiros de São Paulo e também do Rio de Janeiro. O grupo, que existe até os dias de hoje, tem como principal objetivo reunir e conservar um acervo importante do “movimento anarquista” daquela época, e também de um período anterior.

Mesmo em pleno período de governo militar no país, Ideal Peres insistiu em constituir grupos de estudo em sua casa, no início da década de 1970, para leitura e reflexão de textos libertários, conseguindo lá aglutinar jovens interessados nas idéias anarquistas.

Pelos relatos de Milton Lopes, que freqüentou esses cursos, podemos entender como funcionavam as coisas naquela época. Vendo o livro Anarquismo de Daniel Guérin, editado por Roberto das Neves e publicado pela editora Germinal em 1968, na casa de um companheiro, Milton foi atrás do editor, que lhe entregou um bilhete dizendo para que fosse até a casa de Ideal Peres no Leme, comentando que tinham acabado de sofrer um processo – referia-se ao processo do CEPJO. O encontro entre Milton Lopes e Ideal Peres se deu em 1973, na casa de Ideal. Ele acertou com companheiros presentes, todos com interesse no anarquismo, a constituição de um grupo de estudos que funcionou durante alguns anos em sua própria casa. Conforme relato de Milton Lopes,

“Além dos jovens, que se reuniam semanalmente com Ideal e Esther, freqüentavam eventualmente as reuniões outros anarquistas, tais como alguns antigos integrantes do Movimento Estudantil Libertário (MEL), o professor Matos, o editor Roberto das Neves e, quando veio ao Brasil pela primeira vez depois de deixar o país na época do processo do CEPJO, Pietro Ferrua, que naquele momento já lecionava em uma universidade norte-americana. Os jovens ali também tiveram contato com Diamantino Augusto, antigo militante santista/carioca e organizador de uma conhecida greve nas docas de Santos ainda em 1920.”[43]

Ideal, que vinha de um momento muito complicado desde o fechamento do CEPJO e sua prisão, encontrou no grupo de jovens um novo fôlego, assim como os jovens encontram em Ideal um “professor”, hábil e generoso para responder a todas suas dúvidas sobre o anarquismo.

Além disso, Ideal Peres contribui com a publicação baiana Inimigo do Rei, que havia sido fundada em 1977, em Salvador. Ideal contribuiu com diversos artigos para o jornal, sempre com pseudônimos: João Carneiro, “Carnaval 42” no nº 3; José Liberatti, “Qual é a do Lula?” no nº 3; João Liberatti, “As Revoltas Operárias” no nº 3; João Liberatti, “O Fantasma da Liberdade” no nº 3; José Liberatti, “Arrabal causa Pânico” no nº 4; José Liberatti, “Felizmente Irrecuperável” no nº 4  (sobre a antologia Mulheres da Vida); José Liberatti, “Uma Alegoria da Sociedade Burguesa” no nº 4 (sobre A Ilha dos Condenados de Stig Dagerman); José Liberatti, “A Revolução Espanhola” no nº 6; Antonio Carvoeiro, “Teria sido o Lula Picado pela Mosca Azul?” no nº 6; José Liberatti, “Operário também Sabe Escrever” no nº 6 (sobre A Imprensa Operária no Brasil de Maria Nazareth Ferreira); José Liberatti, “Aleluia, Aleluia! Um Livro do Sr. Carone que pode ser Lido” no nº 6 (sobre O Movimento Operário de Edgar Carone); Martins Freire Lustrador, “Partido Trabalhador” no nº 7; Ari Selênio Candeeiro, “II Congresso da Alma aponta os rumos da luta nos Bairros” no nº 8; Sujiro Chibata, “Entre Colunas” no nº 8 (sobre livro homônimo de Roberto das Neves); Arcádio O. Silva, “Falta Muito para se ter a História do Movimento Operário” no nº 9; Marino de Sá Caniculeiro, “O Mito do Partido” no nº 11 (sobre livreto homônimo lançado pelos anarquistas do Rio Grande do Sul). Ideal ajudou também a distribuir o periódico para outras áreas do país e do mundo.

Milton Lopes recorda esta relação entre Ideal Peres e o Inimigo do Rei:

“Em 1976 ou 1977 freqüentava com outros colegas de minha faixa etária (andava pelos vinte e poucos anos) grupo de estudos na casa do militante Ideal Peres no Leme, uma das poucas atividades a que podíamos nos permitir em vista da ditadura militar. No decorrer de um dos ‘papos’ que começavam ou encerravam estas reuniões, Esther Redes, a companheira de Ideal, comentou: ‘- Ideal está muito contente. Entrou em contato com um grupo de jovens na Bahia que aderiram ao anarquismo e estão aglutinados pensando em como agir, não é verdade, Ideal?’ Em resposta a este comentário Ideal, sorridente, nos confirmou ser verdade a afirmação de Ester, demonstrando com este sorriso que a descoberta dos baianos havia sido uma grata surpresa e que neles depositava grandes expectativas para desenvolver um trabalho de militância. […] Em suas férias seguintes Ideal e Ester viajaram à Bahia onde entraram em contato pessoal com os futuros editores do Inimigo do Rei. Voltaram ainda mais entusiasmados não só com as pessoas, mas também com a cidade de Salvador. Ao final de 1977 ou início de 1978 recebi um telefonema do Ideal em meu local de trabalho solicitando que recepcionasse dois companheiros do jornal de que já havia sido lançado o primeiro número que estavam hospedados no Hotel Guanabara (apartamento 905). Ali estive e conversamos bastante. Fiquei de levá-los a uma visita os ‘sebos’ do Rio, mas não me recordo porque tal passeio não pôde ocorrer.”[44]

Ainda na primeira metade da década de 1980, Ideal e Esther adentram um movimento social, como fundadores e membros da Associação dos Moradores e Amigos do Leme (AMALEME). Na década de 1980, no Rio de Janeiro, surgia uma série de federações de associações de bairro, favelas e comunidades, e a participação de Ideal na AMALEME buscava influenciá-la a utilizar práticas autogestionárias e a demonstrar solidariedade à comunidade carente do Morro do Chapéu Mangueira. Em 1984, Ideal foi eleito vice-presidente da associação e, em 1985, presidente.
Sua atenção para as associações de bairro havia nascido no contato com uma outra associação, a ALMA (Associação dos Moradores da Lauro Muller e Adjacências), talvez a primeira associação a demonstrar ímpetos combativos e autogestionários, o que terminou por influenciar outras associações. 

Ideal Peres relatou as experiências do II Congresso da ALMA de 1979 em um artigo no Inimigo do Rei. Nele, destacou as características libertárias deste movimento que defendia a organização, a responsabilidade, a autogestão, a ação direta e as decisões tomadas pela base:

“A liberdade funciona, e funciona muito bem. Foi o que comprovou na prática o II Congresso da ALMA [...], no Rio de Janeiro, realizado nos dias 6, 7, 8, 9 e 13 de outubro do ano em curso. O que diria o leitor de um Congresso onde não existiu mesa diretora e orientadora dos trabalhos? Ausência de manipulações de bastidores, de imposições veladas ou ostensivas, cassação de palavras ou orientação para uma finalidade previamente estabelecida? Além do mais, que permitisse a todos a expressão livre de suas idéias e proposições, ainda que não fossem associados, mas estivessem inscritos no Congresso? Provavelmente afirmaria que foi o caos total, a irresponsabilidade, a desordem... Entretanto, na prática observou-se o oposto: a ordem libertária, o respeito mútuo, a organização eficiente e antiautoritária, a responsabilidade coletiva. [...] O Congresso provou que uma comunidade desperta, ativa, livre, cooperativa, é capaz de estudar os problemas básicos da existência e através de uma prática, chegar a soluções originais. [...] A FANERJ (Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro) vem de adotar posição firme em relação ao movimento sindical, à Igreja, e à toda organização que queira colaborar, afirmando que as portas estão abertas para uma cooperação; porém, que não permitirão qualquer espécie de manipulação, de quem quer que seja. O II Congresso da ALMA demonstrou que as comunidades de moradores estão abrindo novas perspectivas para a solução dos problemas econômico-sociais através da autogestão, da ação direta e das decisões de base. É como indica o velho hino operário: ‘fazendo pelas próprias mãos, tudo que lhes dizem respeito’.”[45]

Com este estreitamento de laços com os movimentos sociais, Ideal Peres deu início à busca por um novo vetor social para o anarquismo, vetor este que havia se perdido desde a crise do sindicalismo dos anos 1930, que terminou estendida ao próprio anarquismo, e separou, por muitos anos, os anarquistas dos movimentos sociais.[46] Pode-se entender que era a busca de um novo vetor que Ideal Peres realizava, ao entrar nas associações de bairro, buscando ampliar os horizontes do anarquismo e dar a ele o corpo social que lhe faltava desde a crise de aproximadamente cinco décadas atrás.

Ao colocar o anarquismo em contato com os movimentos sociais, Ideal Peres realizou as primeiras experiências de “inserção social” deste segundo momento do anarquismo, depois da crise dos 1930. Com isso, ele buscava fazer com que a ideologia anarquista voltasse a influenciar o nível social dos movimentos e lutas populares por meio de práticas libertárias como a autogestão, ação direta, decisões pela base etc.

CÍRCULO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS

Em 1985, os anarquistas que haviam participado do curso “Anarquismo: por novas formas de organização social”, promovido pela UNIVERTA, decidiram pela criação de um espaço libertário no Rio de Janeiro. O Círculo de Estudos Libertários (CEL), como foi chamado, nasceu neste mesmo 1985, a partir das iniciativas de Ideal Peres e, principalmente, de Esther Redes.

“Em 1985, Ideal, Esther e um grupo de novos e antigos companheiros fundaram o Círculo de Estudos Libertários (CEL). O aparecimento de um espaço como o CEL, com reuniões semanais, impulsionou a organização dos anarquistas e promoveu a chegada de novos militantes. Ideal participou da criação da revista Utopia e da elaboração de todos os seus números, bem como da organização dos seminários anuais Anarquismo Hoje.”[47]

Os encontros semanais do CEL aconteciam em uma escola privada, chamada Senador Correia, que recebeu o grupo durante sete anos. O CEL agregava individualidades e grupos organizados e sua proposta era funcionar como um espaço para aproximação de novos interessados no anarquismo, proporcionar o amadurecimento teórico dos freqüentadores, e também servir como um espaço de articulação de atividades práticas.

Dentro dele desenvolveram-se grupos anarquistas como o Grupo Anarquista José Oiticica (GAJO), o Grupo Anarquista Ação Direta (GAAD), o Coletivo Anarquista Estudantil 9 de Julho (CAE-9), o grupo Mutirão e, como fruto das experiências destes grupos, publicações como a revista Utopia, o informativo Libera… Amore Mio e o jornal O Mutirão. O GAJO, refundado em 1987, era um grupo que apoiava o CEL e atuava na manutenção de suas atividades, estando permanentemente em contato com Ideal Peres, tanto nas reuniões como em sua própria casa. O GAAD e o CAE-9 eram grupos de estudantes, ligados ao movimento estudantil.

Ideal Peres também apoiou e esteve muito próximo ao grupo Mutirão, chegando inclusive a receber suas reuniões em sua casa. O Mutirão participou do CEL e editou o jornal de mesmo nome, tendo sua primeira edição em 1991, e possuindo grande preocupação com a questão da inserção social dos anarquistas nas lutas sociais e populares. O jornal Mutirão: periódico anarquista teve cinco números; quatro em 1991 e um em 1992, com artigos que buscavam refletir sobre a presença anarquista nestas lutas. Dos artigos publicados, podemos citar: “Breve Histórico das Lutas Camponesas”, “Trabalhadores Rurais se Organizam e Agem” e “Resistência e Ação Direta pela Posse da Terra”. Além do jornal, o Mutirão possuía trabalho nos movimentos agrários, principalmente no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde tiveram alguma visibilidade. Para o número 3 do Mutirão, Ideal Peres escreveu o artigo “O que é Mutirão?”, no qual explicava a essência do termo que dava nome ao grupo e à publicação:

“Os trabalhos são os mais variados possíveis: construção de estradas, casas, escolas, açudes, limpeza de rios, de terrenos, plantações de árvores, pomares, hortas, colheitas de plantações etc. Ao final das tarefas, efetuadas gratuitamente, geralmente realizam-se festas, com músicas, danças, cantos e comidas. O mutirão é uma forma de cooperação voluntária, muito comum nas zonas rurais do Brasil, daí se questionar suas origens. Alguns atribuem aos grupos indígenas, acentuando que os Tapirapés fazem em comum a derrubada das árvores para o plantio de suas roças, dando a esta tarefa o nome de Apatxirum. Outros vão encontrá-las nas tribos africanas, como os Bantus, que o teriam trazido para o Brasil. Finalmente, um terceiro grupo afirma que o mutirão é de influência portuguesa, pois nas aldeias, o sistema de rogar os vizinhos para os trabalhos agrícolas é muito comum. É fácil deduzir que o mutirão não tem uma origem única, mas é um hábito de solidariedade muito comum em quase todos os povos do mundo e se arraiga no sentimento de simpatia solidariedade social e ajuda mútua.”[48]

Em 1988 o CEL realizou uma grande campanha pelo voto nulo, que teve significativa força e repercussão entre os políticos cariocas e também na grande imprensa, propiciando até uma resposta do vereador Chico Alencar, que iniciou uma contra-campanha, conclamando os cidadãos cariocas a exercerem seu sagrado direito ao voto.

Nos fins deste ano, o CEL publicou o primeiro número da revista Utopia com colaboração de companheiros de São Paulo, revista esta que foi publicada de 1988 até 1992, tendo 5 números. Em seu primeiro editorial ela enfatizava que pretendia discutir a vida e mostrar que o anarquismo não era uma “hidra de mil cabeças”, mas sim “um conjunto ordenado de concepções, de idéias e de práticas que contribuem decisivamente para melhor compreender os grandes problemas que todos nós ajudamos a construir e com os quais agora nos defrontamos.”[49] O depoimento de Renato Ramos – nesta época um jovem membro do GAJO e do CEL, que auxiliou na edição de Utopia – trata do processo de edição da revista e realça a participação de Ideal Peres, que nesta época tinha mais de 60 anos e continuava a trabalhar junto aos jovens:

“A primeira [edição da Utopia] é de 88, a segunda é do inverno de 89. Esta que eu estou na mão, que é a número 3, foi feita em 90… Na realidade, é uma revista feita por amadores. A elaboração deste número 3 foi na casa de minha avó materna, que havia falecido há pouco tempo, lá em Ipanema, Rua Barão de Araripe. A casa estava vazia, ela dava aulas e tinha uma sala muito grande. Tinha uma mesa grande, como esta aqui, e a gente se reuniu… Eu, Ideal, Paulo Henrique, Pedrão, Bruno, Ester, a Miriam Chaves e outras pessoas que eu não estou lembrando agora. E não tinha computador naquela época. Aí a gente escrevia na lauda, mandava pra uns gabinetes desses aí, eles digitavam pra você, a gente ia ao centro da cidade buscar as colunas digitadas. Qual era o trabalho de diagramação? Era uma folha A3, de papel milimetrado, cola Print, tesoura, Pilot preta e colando os títulos já formatados e as colunas. E a gente ia fechando a revista assim. Cada um dando uma sugestão, tudo bem autogestionário. Quem sabia mais dava a dica, quem não sabia aprendia.”[50]

Entre 1988 e 1989, o CEL e outros grupos anarquistas organizaram, no espaço do IFCS/UFRJ, os ciclos de palestras “Anarquismo Hoje”. Deste evento, participaram vários estudiosos do anarquismo como Maurício Tragtenberg, Flávio Luizetto, Margareth Rago, Lucia Bruno e Roberto Freire, além de membros do Centro de Cultura Social de São Paulo e do próprio CEL. Com o sucesso do evento, novos militantes foram atraídos e os grupos saíram fortalecidos.

Nos fins de 1990, outro seminário foi realizado, na sede do Sindicato dos Petroleiros, também com a maciça presença do público. Lá, Ideal Peres realizou uma palestra sobre autogestão.

Em 1991, surgiu o Libera… Amore Mio, informativo periódico editado pelo CEL. Seu nome foi baseado no título do filme de Mauro Bolognini, chamado Libera, Amore Mio, produzido na Itália em 1971, e que relata a história de uma mulher que, ao ser persuadida pelas idéias anarquistas de seu irmão, passou a combater o fascismo e, em algum tempo, tornou-se uma brava guerrilheira que lutou contra a ditadura de Mussolini.

No primeiro número do Libera…, o CEL definiu-se, colocando-se como “um espaço onde se possa saber e discutir a história das lutas sociais e, através da troca de idéias e pesquisas, aglutinar elementos que estejam fatigados, tanto da ditadura burocrática do marxismo-leninista, como da corrupção e incompetência do Estado e parlamentos capitalistas.”[51]

Ainda em 1991, Ideal Peres afastou-se do CEL, transferindo sua responsabilidade aos militantes mais jovens, passando a viajar pelo Brasil divulgando o anarquismo em palestras e debates. Ele passou por diversas localidades, dentre elas João Pessoa, Belém e Natal. Apesar de sua saída, continuou próximo dos anarquistas do CEL, como o demonstra sua participação no Mutirão, as palestras realizadas e as contribuições financeiras mensais que fez para o espaço.

O CEL foi responsável pela realização de muitas palestras e debates, com diversos temas de interesse. A partir de junho de 1991, até a morte de Ideal Peres, houve uma série de palestras e debates ocorrendo semanalmente. Das palestras realizadas, podemos citar algumas: “O Anarquismo”; “Ética e Moral Anarquista”; “Individualismo e Coletivismo”; “Primeira Internacional”, por Ideal Peres; “Heterogestão, Cogestão, Autogestão”; “Educação Popular”; “Os Anarquistas e a Rio 92”; “Impeachment e Plebiscito”; “Universidades Populares”; “Nova Ordem Mundial”; “A Construção das Utopias”, por Alexandre Samis; “Giovani Rossi e a Colônia Cecília”, por Renato Ramos; “100 Anos de Estigma: a fase do terrorismo individualista na Europa”, por Renato Ramos e João Madeira; “Anarquismo no Brasil: 1945-1964” e “Anarquismo no Brasil: 1964-1985”, por Ideal Peres; “Trabalho e Alienação”; “Rede Globo: três décadas de domínio”.

Além desses muitos debates e palestras, o CEL organizou atividades de rua tais como participação em manifestações, panfletagens e mobilizações no Primeiro de Maio.

No início de 1992, houve uma elevação do aluguel que o CEL pagava pela sala na Escola Senador Correia, motivo pelo qual ele acabou sendo transferindo para o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Neste mesmo ano, o Libera… anunciou, em um artigo intitulado “O CEL não pode esperar”, que o grupo passava por algumas dificuldades. Assim, apelava à solidariedade dizendo precisar “de toda a ajuda possível: divulgação, poesias, fotos, ilustrações, artigos (opiniões), reportagens, notícias etc…”.[52]

Dentre outras atividades realizadas pelo CEL podemos citar: a participação no seminário “Outros 500” de 1992, a campanha contra a pena de morte de 1993, a publicação, em co-edição com a editora Imaginário de São Paulo, do livro Bakunin com artigos de Kropotkin, Herzen, Malatesta, Guillaume, Richard Wagner, dentre outros. No âmbito do CEL os clássicos anarquistas eram muito lidos e debatidos. Nestes, Ideal Peres sempre admirou o compromisso militante, a ética e a vontade. Por exemplo, ao ser questionado, em 1992, sobre a “luta final”, a militância de Buenaventura Durruti (o revolucionário espanhol) e outros combatentes libertários, Ideal enfatizou:

“(…) o que existe é o aqui e agora, a luta constante de indivíduos e grupos para crescer e serem livres. O anarquismo está além do bem-querer ao próximo e fazer as coisas com tesão, e é a atitude e o compromisso, tudo feito com ética e vontade. [Sobre os combatentes libertários], se tiverem a ética de um Durruti e não se tornarem ‘profissionais’ de revolução, sua atuação é válida, assim como qualquer outra militância sincera e conseqüente para o movimento anarquista.”[53]

Surgiram, também, no âmbito do CEL, importantes experiências de inserção social nos movimentos de ocupação e sindical, além de manifestações e enfrentamentos de rua. Todos estes grupos e publicações foram sempre apoiados e incentivados por Ideal Peres, que via na nova geração a possibilidade de se realizarem seus sonhos libertários.

FIM DE UMA INTENSA VIDA DE MILITÂNCIA

Ideal Peres, que de uma forma ou de outra participou ou incentivou as atividades aqui descritas, faleceu em 16 de agosto de 1995. Nesta época, ele andava debilitado, mas vinha se recuperando, até que foi acometido por uma insuficiência renal acompanhada por infecção pulmonar, que lhe custaram uma internação e ele não resistiu. A cerimônia de seu enterro aconteceu no dia seguinte; foi

“uma cerimônia […] simples e emocionante. Algumas palavras de companheiros; a bandeira ácrata cobrindo seu corpo até o último momento; a Internacional ouvida e cantada quando seu caixão baixava à sepultura. Uma cerimônia digna, um enterro de um homem que foi anarquista por toda a vida.”[54]

O CEL fez homenagens a Ideal no Libera… com os artigos “Perdemos ‘Nosso Velho’… Morreu Ideal Peres” e “Até Sempre Velho Companheiro”. A epígrafe deste texto faz parte de uma destas homenagens.

Os militantes cariocas seguiram as atividades de Ideal Peres e fizeram mais uma homenagem a ele, modificando o nome do CEL para Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres (CELIP). Segundo depoimentos dos militantes[55], carregaram, além da experiência de luta, uma lição sobre ética, compromisso e vontade que lhes foi ensinada pelo “querido velho”, quando disse que “um sujeito que tem uma ética libertária sabe por que está lutando e consegue explicar os motivos ideológicos da luta, tem compromissos e autodisciplina para levar a cabo as tarefas assumidas”.

Além disso, destacam-se, para os militantes, dois aspectos na vida de Ideal Peres: seu incentivo à militância dos jovens e suas experiências e incentivos ao anarquismo social, voltado aos movimentos sociais e lutas populares.

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Samis, Alexandre. “Anarquismo, ‘bolchevismo’ e a crise do sindicalismo revolucionário”. In: História do Anarquismo no Brasil, vol. 2. Rio de Janeiro: UFF, no prelo.

Samis, Alexandre. “‘Minha Pátria é o Mundo Inteiro’: Neno Vasco, o anarquismo e as estratégias sindicais nas primeiras décadas do século XX” (tese de doutoramento, UFF, 2006).

Samis, Alexandre. “Pavilhão Negro sobre Pátria Oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil”. In: História do Movimento Operário Revolucionário. São Paulo: Imaginário, 2004.

Samis, Alexandre. “Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos”. In: Reis, Daniel Aarão e Ferreira, Jorge. As Esquerdas no Brasil: a formação das tradições 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Samis, Alexandre. “Três entrevistas a Felipe Corrêa”, 2007.

Vidal, Raul. “Reflexões de um Anarquista”. In: Ação Direta 133. Rio de Janeiro: 1959.

Agradeço Milton Lopes, Alexandre Samis, Renato Ramos e Plinio Coelho, pela ajuda que me deram neste texto.

Novembro de 2008

 

 


[1] Samis, Alexandre. “Pavilhão Negro sobre Pátria Oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil”. In: História do Movimento Operário Revolucionário, p. 177. [As referências bibliográficas completas das notas de rodapé estão ao final do artigo].

[2] Ideal Peres, nos anos 1970, falava que se recordava de sua infância, quando seus pais saíam à noite para participar de reuniões da ANL. Lopes, Milton. “Entrevista a Felipe Corrêa”.

[3] A Juventude Anarquista do Rio de Janeiro aparece identificada também, na bibliografia consultada, como Juventude Libertária e outras variantes.

[4] Rodrigues, Edgar. A Nova Aurora Libertária (1945-1948), p. 58.

[5] Ibidem. pp. 117, 121.

[6] Vidal, Raul. “Reflexões de um Anarquista”.

[7] Rodrigues, Edgar. A Nova Aurora Libertária (1945-1948), p. 159.

[8] Ibidem. p. 161.

[9] Ibidem. pp. 81-82.

[10] Idem. Entre Ditaduras (1948-1962), p. 35.

[11] Ibidem, p. 89.

[12] Rocha, Bruno. “A História de (um) Ideal”.

[13] Para saber mais sobre José Oiticica, ver: Samis, Alexandre. “Presenças Indômitas: José Oiticica e Domingos Passos” e Lopes, Milton. “José Oiticica: uma existência pela Ação Direta”.

[14] Rodrigues, Edgar. Três Depoimentos Libertários p. 29.

[15] Idem. Entre Ditaduras (1948-1962), p. 175.

[16] Idem. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), p. 27.

[17] Ibidem, p. 28.

[18] Idem. Entre Ditaduras (1948-1962), p. 178.

[19] Ibidem, pp. 29-32.

[20] Idem. Entre Ditaduras (1948-1962), p. 241.

[21] Idem. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), pp. 29-32.

[22] Idem. Entre Ditaduras (1948-1962), pp. 179-181.

[23] Idem. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), pp. 29-32.

[24] Guerreiro, Itamar. “Ventos Libertários”.

[25] Rodrigues, Edgar. Três Depoimentos Libertários pp. 50-54.

[26] Idem. O Ressurgir do Anarquismo (1962-1980), p. 95.

[27] Para ler na íntegra o texto apresentado por Ideal Peres, ver “Dez Minutos de José Oiticica”.

[28] Ibidem.

[29] Ibidem.

[30] Ramos, Renato e Rocha, Bruno. “Ideal Peres: filho de João e Carolina”.

[31] Rodrigues, Edgar. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), p. 35.

[32] Ibidem, p. 50.

[33] Cubero, Jaime. Três Depoimentos Libertários p. 138.

[34] Ibidem. p. 139

[35] Para ver a relação completa do material apreendido, ver o Auto de Busca e Apreensão do Ministério da Aeronáutica publicado em Rodrigues, Edgar. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), pp 187-195.

[36] Rocha, Bruno. “A História de (um) Ideal”.

[37] Rodrigues, Edgar. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), p. 53.

[38] Idem. Três Depoimentos Libertários p. 57.

[39] Idem. Anarquismo no Banco dos Réus (1969-1972), p. 159. O texto pode ser lido na íntegra a partir da página 156 deste livro.

[40] Ibidem. p. 159.

[41] Ibidem. p. 54.

[42] Ibidem. p. 63.

[43] Para um relato sobre Diamantino Augusto, ver: Lopes, Milton. “Meu Tipo Inesquecível”.

[44] Lopes, Milton. Entrevista a Inimigo do Rei.

[45] Peres, Ideal como Ari Selenio Candieiro. “II Congresso da Alma Aponta os Rumos da Luta nos Bairros”.

[46] Alexandre Samis atribui este problema de afastamento do anarquismo do sindicalismo, que constituía seu vetor social, a uma crise da conjuntura (atrelamento dos sindicatos ao Estado, da repressão e da ofensiva bolchevique) e também a um problema de organização dos próprios anarquistas que, por razão de não estarem mais organizados especificamente como anarquistas, não conseguiriam encontrar novamente um outro vetor social, em outros movimentos sociais que evidenciassem a luta de classes. Para um aprofundamento sobre esta reflexão sobre a perda do vetor social no anarquismo brasileiro dos anos 1930, ver: Samis, Alexandre. “Pavilhão Negro sobre Pátria Oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil”; “Anarquismo, ‘bolchevismo’ e a crise do sindicalismo revolucionário”; “‘Minha Pátria é o Mundo Inteiro’: Neno Vasco, o anarquismo e as estratégias sindicais nas primeiras décadas do século XX”.

[47] Ramos, Renato e Rocha, Bruno. “Ideal Peres: filho de João e Carolina”.

[48] Peres, Ideal. “O que é Mutirão”.

[49] Citado em CEL. “CEL: 10 Anos de Resistência. Libera…: 4 Anos de Persistência”.

[50] Lopes, Milton e Ramos, Renato. “Entrevista a João Henrique Oliveira”.

[51] CEL. “Editorial”. Libera nº 1.

[52] CEL. “O CEL não Pode Esperar”.

[53] Rocha, Bruno. “A História de (um) Ideal”.

[54] CEL. “Perdemos ‘Nosso Velho’… Morreu Ideal Peres”.

[55] Ramos, Renato. “Entrevista a Felipe Corrêa”.

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