MEMÓRIA ANARQUISTA DO CENTRO GALEGO DO RIO DE JANEIRO
(1903-1922)

Mílton Lopes (Federação Anarquista do Rio de Janeiro)

A rua da Constituição localiza-se no centro histórico do Rio de Janeiro, efetuando uma das ligações entre a Praça Tiradentes e o Campo de Santana (ou Praça da República, como foi rebatizado). Antiga rua dos Ciganos, onde por ordem do governo se concentravam as pessoas daquela origem na cidade durante o período colonial, ganhou seu nome atual já nos últimos tempos do domínio português/início do Primeiro Reinado. Alguns locais deste logradouro estão associados à memória anarquista da cidade do Rio de Janeiro. No número 14 funcionou a livraria de Lírio de Rezende, poeta anarquista (ver sua coletânea de poemas Mundo Agonizante publicada em 1920), a primeira especializada em literatura anarquista; no número 47 (esquina com Avenida Gomes Freire), por sua vez, no prédio de três andares que abrigava o Centro Internacional dos Pintores, em meados de 1904 os anarquistas iniciaram sua experiência da Universidade Popular de Ensino Livre. E foi ali, já nos primeiros anos do século XX, que funcionavam nos números 30 e 32, as instalações do Centro Galego. Não me foi possível determinar o ano em que este iniciou suas atividades, mas o fato é que o primeiro registro que consegui encontrar de eventos anarquistas em suas dependências foi a estréia, a 12 de outubro de 1903 do Grupo Dramático de Teatro Livre. Fundado naquele mesmo ano na Associação Auxiliadora dos Artistas Sapateiros, localizada à rua dos Andradas, 87, também no centro do Rio, aquele grupo de teatro libertário apresentou naquela ocasião as peças 1o de Maio (de Pietro Gori), O Mestre e A Escola Social. Seu primeiro ensaiador e organizador foi o gráfico anarquista espanhol Mariano Ferrer e o grupo inicialmente era formado por Antonio Monteiro, João Portas, Manuel Nogueira, Luís Magrassi (anarquista italiano que depois se mudou com sua mulher Matilde para Buenos Aires), José Sarmento, Antonio Domingues, José Garlemo, Carmen Ferrer, Dolores Ribas, Francisca Morais, Ernesto e Armando Portas e a menina Pillar Tata. A orquestra que acompanhou a representação era predominantemente feminina, sendo o elemento masculino representado por Francisco Leal, Luiz Silva, Silvestre Machado e Gabriel de Almeida.

Dando um salto de três anos vamos encontrar registros da atividade mais importante do movimento social e anarquista que o Centro deve ter abrigado, que foi a realização, de 15 a 20 de abril de 1906 do I Congresso Operário Brasileiro, momento histórico para o proletariado brasileiro então em formação, que contou com a participação de representantes de federações e associações proletárias de São Paulo, Ceará, Rio Grande do Sul, Bahia, Alagoas, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ali foram debatidas teses sobre orientação, organização e ação operária. Nas resoluções ali tomadas prevaleceu a orientação sindicalista revolucionária, o anti-militarismo, a necessidade de ação direta e abstenção de táticas eleitorais e o ensino leigo, portanto teses anarquistas. Além disso, foi aprovado em votação a criação imediata da Confederação Operária Brasileira de acordo com o modelo da CGT francesa, fundando-se o seu órgão, o jornal A Voz do Trabalhador (1a edição a 1o de fevereiro de 1908). Um detalhe interessante é que da comissão organizadora do I Congresso faziam parte dois dos integrantes do Grupo Dramático de Teatro Livre que estreara naquele mesmo Centro Galego quase três anos antes, quais sejam Luiz Magrassi e Antonio Domingues. O Congresso foi alvo de comentários de alguns dos mais importantes jornais da então capital do Brasil , como o Correio da Manhã, Gazeta de Notícias e Jornal do Brasil. As matérias publicadas foram unânimes em afirmar que os elementos mais ponderados durante os debates eram os anarquistas, ali representados em grande número. No dia 22 de abril o I Congresso Operário Brasileiro se encerrava no Teatro Lucinda ao som da Internacional. Edgar Rodrigues publica à página 113 do seu livro Socialismo e Sindicalismo no Brasil (Editora Lammert, Rio de Janeiro, 1969) foto dos congressistas no salão do Centro Galego.

Ainda dentre as resoluções tomadas pelo I COB estava a decisão de deflagrar greve geral no dia 1o de maio de 1907 visando à conquista da jornada de oito horas de trabalho. De fato naquela data ela teve início em São Paulo, estendendo-se logoa outros estados. No Rio de Janeiro o Centro Galego foi literalmente palco de manifestação de caráter anarquista com a encenação da peça Antonio (Drama Social em cinco atos) de autoria de Guedes Coutinho durante festival libertário que contou ainda com palestra de José Romero e baile. José Romero Ortega, o conferencista, era um operário anarquista espanhol que viera criança com os pais para o Brasil na última década do século XIX. No Brasil perdeu seu pai e seus irmão durante uma epidemia, tendo que deixar a escola e passar a ganhar a vida como operário têxtil. Freqüentando comícios, e lendo a imprensa libertária torna-se anarquista em sua juventude. Participou da fundação do Grupo Dramático de Teatro Livre em 1903 e em 11 de novembro de 1905 estava no grupo de anarquistas que fundaram o jornal Novos Rumos durante reunião em homenagem aos mártires de Chicago na Federação das Associações de Classe na rua Senhor do Passo, 82, sobrado. No ano seguinte se tornaria o responsável pelo principal jornal anarquista brasileiro de então A Terra Livre, quando este mudasse sua redação de São Paulo para o Rio. Sem nenhuma dúvida pode-se considerar que Romero foi uma figura histórica importante do movimento anarquista no Rio, mantendo-se fiel às idéias ácratas até seu falecimento (na década de 1970 ?). A formação do Grupo Dramático de Teatro Social na representação de 1o de maio de 1907 compreendia Davina Freixeiro, Ulisses Martins, Couto Nogueira, Silva Monteiro, Torres, Teixeira, Alacid, F. Pereira, Domingues, Alvaro e as crianças Armando a Tatta, que haviam participado da representação de 1903. Ulisses Martins era espanhol e tipógrafo e havia se tornado anarquista em S. Paulo, tendo participado com outro anarquista espanhol, Manuel Moscoso, da redação do jornal ácrata Liberdade já no Rio. Começaria a se destacar no movimento anarquista no triênio 1906- 1909 a partir dos protestos no Rio contra a execução de Ferrer em Montjuich. Mais tarde tornou-se ator profissional.

Ainda em 1907 a programação no Centro Galego demonstra afinidade dos anarquistas do Rio com os da Espanha ao se realizar naquele local festa para angariar fundos a serem enviados não só para o jornal Terra Livre (dirigido em S. Paulo pelo anarquista português Neno Vasco) mas também para o Tierra y Liberdad de Madri, o que aconteceu de 14 a 23 de julho daquele ano. Mais uma vez o Grupo Dramático de Teatro Social se fez presente representando a peça As Vítimas de Frederico Doutet, tradução do anarquista português Carlos Nobre. A parte teatral da programação constou ainda de Hambre ( bozzetto social em um ato de Romulo Ovivi) e O Pecado de Simonia de Neno Vasco. Carlos Dias, anarquista brasileiro, se encarregou da conferência inaugural e a noite terminou com um baile. No dia 14, de acordo com o balancete publicado, 185 pessoas pagaram entrada totalizando 370 mil réis de ingressos, o que significou, deduzidos os gastos, a soma d e 199$600, dos quais 98$800 remetidos à Tierra y Liberdad e o restante à Terra Livre. Faltavam ainda cobrar 8 entradas, cujo produto seria dividido igualmente entre os dois jornais. Ainda durante 1907 o Grupo Dramático de Teatro Social voltaria ao palco do teatro do Centro Galego a 29 de setembro e ao final de outubro. Nesta segunda oportunidade a programação constou além da peça Primeiro de Maio de Gori ,de baile e da encenação da peça social em três atos A Ponte, esta última representada pelo “corpo cênico do Centro Galego”. Em novembro ali se realizou um concerto em benefício do “estimado camarada Silvestre Machado, aluno do Instituto de Música, que está doente”, Além do concerto vocal e instrumental e de “baile familiar” foi encenada a peça A Ceia dos Pobres do anarquista e advogado português Campos Lima, anunciada como uma “réplica à Ceia dos Cardeais” de Júlio Dantas. Os ingressos custavam 2 mil réis. (A Terra Li vre 26/10/1907). Campos Lima continuou na pauta do Grupo Dramático de Teatro Social. Em 25 de janeiro de 1908 A Terra Livre anunciava que “em fins de fevereiro, no Centro Galego, o Grupo Dramático Teatro Social realizará, em benefício duma obra de educação e de solidariedade de iniciativa do camarada Campos Lima um espetáculo com o programa seguinte: A Ceia dos Pobres, peça de Campos Lima; A Escola, peça de E. Norés; Greve de Inquilinos, farsa de Neno Vasco. A festa será precedida por uma conferência de Salvador Alacid sobre “o ensino livre”. Oportunamente, daremos mais larga notícia”. Parece que a festa efetivamente ocorreu, mas com alguma mudança em sua programação, segundo a mesma Terra Livre em 26 de fevereiro e 14 de março daquele ano tendo, no entanto, sido mantida a apresentação da peça de Campos Lima.

Dando outro salto no tempo, verificamos que em 3 de fevereiro de 1912 realizou-se no salão do Centro Galego (ainda à rua da Constituição, 30-32) festa libertária que consistiu de conferência pelo Dr. Coelho Lisboa, da representação da peça em um ato Para isso Paga em tradução de J. Botelho e do drama, também em um ato, Os Primeiros Tiros de Amédee Rouquée, este último em tradução de C. A Lacerda, além do inevitável baile ao final.

Quase um ano antes, em 21 de fevereiro de 1911 havia ocorrido a fundação da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, cujos estatutos, publicados em 1912, propunham como um de seus fins principais “combater o clero como um elemento historicamente funesto à sociedade, sob o tríplice ponto de vista político-econômico-moral” (artigo 1o, ss 9o). Sediada na rua General Câmara 335, ao final do ano filiava-se aquela organização à Federação Internacional do Livre Pensamento, cujo secretário-geral, Eugenne Mins, através de carta expedida de Bruxelas e publicada pelo jornal A Época de 1o de janeiro de 1913, aceitava sua inscrição. No 1o de maio de 1912 a Liga promoveu evento no salão do Centro Galego (agora funcionando na rua da Constituição, 38) às 14 horas, que constou de conferências de Coimbra Flamengo e de Ulisses Martins ( esta última de tema anticlerical) e representação dos textos O Primeiro de Maio de Gori, Avatar (peça em um ato de Marcelo Gama) e o Pecado de Simonia de Neno Vasco, encerrando-se com o “baile familiar”.

Uma das principais funções das festas e festivais libertários era a de angariar fundos para dar suporte a iniciativas do movimento operário e/ou anarquista. Desta forma 1913 já se iniciou com festa promovida no salão do Centro pela Confederação Operária Brasileira – COB em benefício de seu jornal, A Voz do Trabalhador com conferência e poesias. Representaram-se as peças Anedota (em um ato) e Pecado de Simonia de Neno Vasco. Os anticlericais constituíram seu próprio grupo teatral, o Grupo Dramático Anticlerical, com sede à Avenida Marechal Floriano, 112 – 2o andar “para dedicar-se às representações teatrais e à propaganda dos ideais de emancipação humana”. Este grupo organizou velada no Centro Galego cuja renda reverteria para a publicação de folhetos de propaganda com baile e leilões em 22 de fevereiro de 1913.. No dia 30 de abril o Grupo Dramático Anticlerical organizou nova festa no teatro do Centro. Na ocasião representaram- se as peças Amanhã, O Primeiro de Maio e O Operariado. A conferência ficou a cargo de um jovem e muito culto professor, um inconformista filho de senador, que no ano anterior havia se descoberto anarquista e publicado seu primeiro texto no jornal anticlerical A Lanterna de São Paulo, seu nome era José Oiticica.

Se o Centro Galego abrigou os trabalhos do I Congresso Operário Brasileiro em 1906, seu espaço também contribuiu para a realização do II COB, que teve lugar no Centro Cosmopolita (sindicato dos empregados em hotéis, cafés, restaurantes e similares) na rua do Senado, 215 de 8 a 13 de setembro de 1913. Desta forma, a 2 de agosto daquele ano o Grupo Dramático Anticlerical volta à cena no Centro Galego com O Pecado de Simonia em uma apresentação pró segundo Congresso Operário Brasileiro. O espetáculo contou ainda com música (uma canção interpretada pelo companheiro Demetrio Minama), poesia (uma das quais declamada pela menina Carolina Boni) e baile. A palestra ficou novamente a cargo de José Oiticica, sinal de que o público deve ter apreciado sua conferência de 30 de abril.

Oiticica parece haver formado uma boa parceria com o Grupo Dramático Anticlerical, uma vez que por uma terceira vez estiveram juntos em uma festa de propaganda no Centro Galego em 1913. Isto ocorreu a 8 de novembro quando foram representadas as peças Amor Louco (drama social em três atos) de Antonio Augusto da Silva e A Escala, fantasia em um ato de Eduardo Norés. Nesta ocasião também houve quermesse e baile. A última atividade anarquista no Centro Galego (ainda na rua da Constituição, 38) em 1913 parece haver sido festa de propaganda a 20 de dezembro ainda como Grupo Dramático Anticlerical, quando foi representada Os Ladrões da Honra de Henrique Peixoto, seguindo-se leilão e “baile familiar”.

Janeiro de 1914 marca a mudança das instalações do teatro do Centro Galego para um endereço próximo ao antigo : a rua Visconde do Rio Branco, 53 (uma rua paralela à rua da Constituição, também entre o Campo de Santana e a Praça Tiradentes). Já a 4 daquele mês ocorre neste novo espaço a partir das 20h. 30 velada em benefício da Confederação Operária Brasileira, marcando a estréia de um novo grupo, o Dramático de Cultura Social. Seus amadores eram Zenon de Almeida, Lírio de Rezende (o poeta e livreiro anarquista, cuja livraria, como já foi dito, funcionava nas imediações do Centro Galego, na rua da Constituição número 14), Plutarco Freitas, Demétrio Mariano, Antonio Castro, Artur Más, Heitor Duarte, Pascoal Gravina, Leal Júnior, Maria Monteiro e Santos Barbosa. Esta estréia vinha sendo anunciada desde novembro de 1913 e vinha sendo sucessivamente adiada. Ali teriam sido representadas as peças A Pátria, Famintos (de Santos Barbosa e Zenon de Almeid a) e Pacatos. A conferência foi pronunciada pelo engenheiro Orlando Corrêa Lopes, à época um dos expoentes do anarquismo no Rio de Janeiro. Diretor da escola profissional Visconde de Mauá em Marechal Hermes, Orlando estava à frente de um jornal comercial que era A Época em que também veiculava ideologia anarquista, embora de maneira mais velada, e neste ano de 1914 iria participar com José Oiticica e do então estudante de medicina Francico Viotti, entre outros, da fundação da revista anarquista A Vida que circulou de 30 de novembro de 1914 até o ano seguinte.

Fevereiro marca a volta do Grupo Dramático Anticlerical ao salão do Centro Galego. Em festa de propaganda iniciada às 21 horas do dia 14 de fevereiro, o grupo apresenta uma montagem de Deus e a Natureza, drama em quatro atos de Artur Rocha. Reativando a parceria do ano anterior, ali está José Oiticica novamente para falar sobre A Grande Luta. Alternando-se com ele volta à cena por duas vezes em março o Grupo Dramático de Teatro Social. A primeira delas a 3 de março, quando é realizado um festival em benefício do Centro de Estudos Sociais e da primeira excursão da Confederação Operária Brasileira pelos estados. Nesta ocasião é representada a peça O Fuzilamento de Ferrer. O Centro de Estudos Sociais, fundado neste mesmo ano no Rio de Janeiro, era local de freqüentes palestras e conferências. Anarquistas como José Oiticica, Fábio Luz (então ainda inspetor escolar no Distrito Federal), José Elias da Silva e Manuel Campos (estivador ana rquista espanhol que militava em Santos e que foi deportado a 11 de novembro de 1914). As reuniões das noites de sexta-feira muitas vezes eram dedicadas a polemicas entre anarquistas e socialistas. Em 21 de março o GDCS ali comemorou o sexto aniversário do Sindicato dos Sapateiros com conferência de Zenon de Almeida, canção e baile. As peças foram, novamente, O Fuzilamento de Ferrer e A Viúva dos Mil Réis e em 11 de julho realizou-se, segundo A Lanterna “grandioso espetáculo operário” na rua Visconde do Rio Branco. Desta vez o GDTS representou em benefício da Voz do Trabalhador Triste Carnaval, traduzida do italiano por Zenon de Almeida e um texto de autoria daquele anarquista gaúcho intitulado Amores em Cristo. O palestrante foi novamente Orlando Corrêa Lopes.

Em 13 de abril de 1914 houve festa no Centro Galego organizada pela Associação dos E. Barbeiros e Cabeleireiros (sic), com conferência de Juana Buela e as peças Leandro Pescador (drama) e O Primeiro Beijo. Ao Grupo Dramático Anticlerical por sua vez coube prestar as honras ao 1o de maio com os dramas sociais O Operariado de Henrique Macedo Júnior e Os Primeiros Tiros de Amedée Rouqués. José Oiticica falou sobre Os Ídolos.
A 6 de fevereiro de 1915 a beneficiária do espetáculo do Grupo Dramático Anticlerical foi a própria Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, para a qual reverteu a renda conseguida com a representação de O Exemplo (drama social em 3 atos de César Mendes – pseudônimo de mota Assunção) e O Pecado de Simonia de Neno Vasco.

O que conseguimos apurar de positivo como atividade de caráter anarquista cronologicamente seguinte no Centro Galego do Rio foi uma “grande festa de propaganda” ocorrida à 8 de novembro de 1918. Agora, o teatro do Centro voltara para a rua da Constituição, 38. O Grupo Dramático Anticlerical atuou em Amor Louco drama social em três atos de Antonio Augusto da Silva e A Escola, peça em 1 ato. Além de “leilão de prendas e baile familiar” houve a conferência de José Oiticica sobre A Moral da Igreja Romana. Oiticica, aliás, seria um dos beneficiados com a próxima atividade libertária desenvolvida no Centro Galego e que foi um festival de solidariedade pró-presos sociais, ou seja, os detidos em conseqüência do movimento de novembro de 1918 no Rio de Janeiro. Iniciando com uma exposição de motivos “por um camarada”, o programa continuava com ato variado composto de poesias e canções da atualidade. A parte teatral propriamente dita ficou a cargo do dr ama Náufragos, do episódio dramático antimilitarista Pela Pátria e da sátira Magna Assembléia. Um grupo de meninas cantou o Hino da Liberdade com a música do Hino Nacional. Neste espetáculo destacaram-se as meninas Nair e América Matera, filhas do destacado militante anarquista italiano Pedro Matera.

Ao final de 1920, a 20 de novembro, parece ter atuado pela primeira vez no teatro do Centro Galego um novo grupo de teatro libertário, o Grupo Dramático 1o de Maio. Naquela noite o festival (de novo na rua Visconde do Rio Branco, 53-sobrado) foi aberto por um coro de meninos cantando a Internacional, após o que .falou José Oiticica (que havia voltado de desterro em Alagoas ainda no ano anterior). A Internacional voltou a ser executada, entre outros hinos, desta vez pela Orquestra Social 4 de abril. Seguiu-se “interessante ato de Cabaret em que tomaram parte D. Luchi, baixo lírico, os irmãos Boni, Constantino Cruz e muitos outros. Depois da comédia de Neno Vasco O Pecado da Simonia voltou-se à parte musical que executou a peça Marselhesa do Fogo. Música ainda para a festa foi fornecida pela Banda Musical da Penha”.

Este festival foi para o Sindicato dos Trabalhadores Gráficos. Outra associação de classe, a Aliança dos Empregados no Comércio e Indústria havia promovido um outro evento a 23 de outubro com uma programação um pouco mais extensa. A própria Orquestra 4 de Abril que, como vimos, atuava nestes espetáculos foi objeto de um festival em seu benefício realizado a 30 de outubro e promovido pelo Grupo Germinal. A Orquestra 4 de Abril assim como os grupos dramáticos 1o de Maio e Germinal se apresentaram no último evento anarquista do Centro Galego em 1920 de que foi beneficiário Edgard Leuenroth que se encontrava doente. A renda apurada com os ingressos vendidos a 1 mil réis seria enviada a Grupo de Auxílio a Edgard Leuenroth.

A primeira atividade que pudemos apurar ter ocorrido em 1921 no Centro foi um festival de apoio ao jornal anarquista A Plebe de São Paulo, ocorrido a 14 de julho daquele ano, com apresentação do Grupo Teatro Social, conferência de José Oiticica, música, récita e variedades. As peças foram: Gaiola, ato dramático de Luciano Descaves e Em Guerra de Carlos Malato. Em outubro Oiticica estava de volta ao Centro Galego para fazer conferência a favor de filhos de militantes deportados, segundo anunciava o jornal A Pátria em edição de 29 daquele mês. Em 15 de novembro a partir das 20 horas o salão do Centro Galego abrigou festival artístico e literário promovida pela Escola 1o de maio. Dirigida por Pedro Matera, esta funcionou inicialmente em Vila Isabel até ser fechada pelas autoridades. A festa era em solidariedade à sua reabertura a 25 de outubro em Olaria, à rua Drumond, 51, com aulas diurnas e noturnas. Pedro Matera organizou pessoalmente a festa e era o autor da peça em dois atos representada intitulada Milagre do Santo. Um grupo infantil tomava parte em um ato variado e a conferência foi pronunciada por Otávio Brandão, ainda anarquista.

O jornal A Pátria em suas edições de 17 de dezembro de 1921 e 3 e 7 de janeiro de 1922 noticiava como atividades libertárias no Centro Galego um festival da União dos Operários em Construção Civil em benefício do operário Antonio Florentino, com duas peças de Fábio Luz e uma de Santos Barbosa. Outros dois festivas de solidariedade ocorreram logo ao início do ano. Um em benefício da família de Manuel Parada e o outro, organizado pela Resistência dos Cocheiros em favor de seu associado Alfredo da Silva Machado.

A Plebe de 30 de março de 1922 anuncia para breve a realização de festa no Centro Galego em prol da revista Renovação com as peças A Vovozinha de Fábio Luz e Ninete de Artur Guimarães, encerrada com uma conferência e a venda do folheto A Minha Opinião sobre a Ditadura Russa do anarquista francês Sebastien Faure. A festa ocorreu a 22 de abril. A última atividade libertária acontecida no Centro Galego do Rio de Janeiro de que pudemos ter notícia em nossa pesquisa foi a conferência de Carlos Dias em benefício dos cofres da Aliança dos Operários em Calçados sobre o tema Iniqüidade Social, noticiada pela Pátria de 11 de agosto de 1922. A partir daí não possuímos elementos para traçar um histórico até do próprio Centro. De qualquer forma, estes dados cobrem quase vinte anos do movimento anarquista e operário no Rio de Janeiro, isto é, o seu apogeu enquanto militância livre e contestadora, período no qual o Centro Galego constituiu inegavelmente um espaço de grande importância principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento de uma subcultura libertária e de apoio mútuo, inserida nas grandes lutas do proletariado carioca.

Fontes consultadas:

A Vida – Periódico Anarquista – Edição Fac Similar – Ícone – São Paulo – 1987

Cadernos AEL Arquivo Edgard Leuenroth no 1 – Operários e Anarquistas Fazendo Teatro -Centro de Pesquisa e Documentação Social – Unicamp – Campinas – Primeiro Semestre 1992

Edgar Rodrigues –O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia- Achiamé-Rio de Janeiro- 1992;

Edgar Rodrigues – Os Companheiros – 1- VJR – Rio de Janeiro – 1994

Edgar Rodrigues – Os Companheiros – 2 – VJR – Rio de Janeiro – 1995

Edgar Rodrigues – Os Companheiros – 3 – Editora Insular – Florianópolis – 1997

Edgar Rodrigues – Os Companheiros – 4 – Rio de Janeiro 1997 – consultado no site do Arquivo Social Edgar Rodrigues na Internet

Edgar Rodrigues – Os Companheiros – 5 – Rio de Janeiro – 1996 – consultado no site do Arquivo Social Edgar Rodrigues na Internet

Edgar Rodrigues – Socialismo e Sindicalismo no Brasil 1675-1913 – Laemmert – Rio de Janeiro – 1969

Edgar Rodrigues – Nacionalismo e Cultura Social – 1913-1922 – Laemmert – Rio de Janeiro -1972

Edgar Rodrigues –Novos Rumos Pesquisa Social 1922-1946- Mundo Livre – Rio de Janeiro- s.d.

Edgar Rodrigues – Alvorada Operária – Mundo Livre – Rio de Janeiro – 1979

Estatutos da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro – Papelaria Tipografia Ao Luzeiro – Rio de Janeiro – 1912

John W. Foster Dulles – Anarquistas e Comunistas no Brasil 1900-1935 –Nova Fronteira – Rio de Janeiro – 1977

Lirio de Rezende – Mundo Agonizante (Poema Social)- Grupo Paladinos do Porvir – Rio de Janeiro – 1920

Neno Vasco – O Pecado de Simonia (Comédia em um Ato) – Centro Juventude do Futuro – sem indicação de local e data da edição

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